Por Karen Cross
Rindo e dançando com o meu noivo na nossa festa de noivado, pensei que
eu explodiria de tanta felicidade. Rodeada de amigos e familiares,
olhei para o Matthew e tive a certeza de que havia encontrado o homem
com quem passaria o resto da minha vida.
Pura e simplesmente, ele era a
minha alma gémea. Nós estávamos desesperadamente apaixonados e tínhamos
o nosso futuro juntos mapeado.
Primeiro, haveríamos de poupar para
comprar a nossa casa, e depois teríamos uma cerimónia de casamento bem
romântica e depois viriam os filhos.
Na altura, tudo parecia tão simples para mim, ingénua e com 19 anos. Eu
era, pensei comigo mesmo, a rapariga que tinha tudo.
Então, porque é
que passados que estão 20 anos, eu me encontro solteira, sem filhos e
atormentada pelo facto de poder ter perdido a única hipótese de
felicidade que eu alguma vez tive?
Oito anos depois dessa maravilhosa festa de noivado de 1989, abandonei
o leal e devoto Matthew, convencida de que algures por aí havia alguém
melhor, mais excitante e mais completo para mim. Só que não havia. Hoje
tenho 42 anos e tenho todas as armadilhas do sucesso - uma carreira bem
sucedida, segurança financeira, e uma casa bem no coração da glamorosa
Notting Hill (Londres). No entanto, não tenho a única coisa que eu
desejo mais do que tudo: um marido amoroso e uma família.
O que se passa é que nunca mais encontrei um homem que me ofereceu tudo
o que o Matthew me ofereceu, que me entendia e que me amava como ele me
amava. Alguém que era o meu melhor amigo mas também o meu amante. Hoje,
olhar para as minhas amigas com crianças à sua volta é uma tortura
visto que é muito pouco provável que eu venha a ter a minha própria
família.
Penso nas vezes que falei com o Matthew sobre termos filhos, chegando
até a discutir o nome que haveríamos de escolher. Nem acredito que
voltei as costas a tanta felicidade. Em vez disso, eis-me de volta ao
mercado das solteiras, buscando exactamente a mesma coisa que descartei
com pouco mais que um olhar de relance durante todos aqueles anos. Sei
que não posso ter o Matthew de volta, e magoa-me quando oiço bocados de
informação em torno da sua vida e do quão feliz ele está. Quinze anos
depois do fim da nossa relação, ele encontra-se feliz e casado.
Por esta altura do ano, muitas pessoas irão analisar as suas vidas e os
seus relacionamentos, questionado-se que a relva é mais verde do outro
lado da cerca. Muitos irão confundir o contentamento pelo
aborrecimento, esquecendo-se de valorizar as boas coisas que eles têm.
Eu apelaria às pessoas que pensam abandonar tais riquezas que
reconsiderem.
Quão diferentes as coisas teriam sido para mim se eu tivesse ouvido o
Matthew quando ele implorou que eu não o deixasse, em 1997, com
lágrimas a caírem dos seus olhos. Eu também me encontrava a chorar,
torturada por observar o coração do homem que amava a ser partido à
minha frente. Mas eu estava decidida.
"
Um dia, pode ser que eu olhe para trás e me aperceba que fiz o maior erro da minha vida", disse eu enquanto nos agarrávamos um ao outro de modo desesperado. Quão proféticas estas palavras se provaram para mim. "
Eu estarei sempre aqui para ti," prometeu o Matthew. E eu, arrogantemente, pensei que eu poderia colocá-lo no gelo e voltar mais tarde para ele.
O Matthew e eu conhecemo-nos quando andávamos na mesma escola em Essex.
Começamos a namorar pouco antes do Natal de 1987, quando eu tinha 17
anos e a estudar para os meus exames "A-Levels". Por essa altura, ele
já tinha saído da escola e trabalhava como
motoboy.
Demo-nos bem como uma casa em fogo, e as nossas famílias deram o seu
apoio ao relacionamento. Não tardou muito para que nós nos
apaixonássemos. O Matthew era romântico mas incrivelmente práctico,
algo que mais tarde na nossa relação enervou-me um bocado. Os seus
presentes de Natal para mim, nesse ano, foram uma jaqueta de couro - e
um par de
leggings térmicas.
Duas semanas mais tarde, quando nós namorávamos há menos de um mês, ele
pediu-me em casamento. Estávamos no meu pequeno Mini Clubman quando ele
gritou-me para parar o carro. Amedrontada, e receando que algo
estivesse errado, travei o carro no meio do trânsito e ambos saímos do
carro. Então, enquanto os outros condutores nem desconfiavam do que se
estava a passar, ele colocou-se de joelhos no meio da estrada. "
Amo-te, Karen Cross," disse ele. "
Promete-me que te casas comigo um dia desses." Ri-me e disse que sim, contente pelo facto dele sentir o mesmo que eu.
No Verão de 1989, enquanto nos encontrávamos num jantar romântico, ele
pediu-me em casamento com um anel de diamante. Dois meses mais tarde,
realizamos a nossa festa de noivado para cerca e 40 amgos e membros da
família na pequena casa que tínhamos alugado entretanto. No ano
seguinte, e para início de vida conjugal, compramos uma pequena casa em
Grays, Essex, que enchemos com mobília pela qual tínhamos implorado,
pedido emprestado e roubado. Sorrimos de modo infantil perante a
perspectiva desta nossa nova vida como adultos.
Eu estava no início da minha carreira numa revista feminina ao mesmo
tempo que Matthew trabalhava com pneus e escapamentos, e como tal a
soma anual dos nossos salários era de cerca de £15,000. Isto implicava
que nós tínhamos que nos esforçar para pagar a hipoteca. Mas nós não
nos importávamos, ao mesmo tempo que nos convencíamos que não passaria
muito tempo até que começássemos a ganhar dinheiro suficiente para
gastar em guloseimas semanais e uma casa maior onde poderíamos criar os
filhos que tínhamos planeado.
Mas foi então que aconteceu um
crash no
mercado imobiliário e nós passamos a ter um património líquido
negativo. O esforço deveria causar mais união entre nós, e a princípio
foi isso que aconteceu, mas à medida que o tempo foi passando e a minha
carreira, e o meu salário, foram avançando, comecei a ter um
ressentimento pelo Matthew pelo facto dele divagar dum emprego sem
saída para outro.
Eu ainda o amava, mas comecei a ficar envergonha pelos seus empregos
"blue-collar"
[ed: isto é, da classe operária] perturbada pelo facto de, apesar da
sua inteligência, ele não ter uma carreira profissional.
Foi então que
ele comprou um lúgubre VW Beetle azul e rose. Porque é que ele não
poderia ter um carro normal? Coisas que hoje parecem ser incrivelmente
insignificantes começaram a "mesquinhar".
Comecei a desejar que ele fosse mais sofisticado e tivesse um
rendimento superior. Sentia inveja das minhas amigas que tinham
parceiros melhor na vida, e que eram capazes de as suportar quando elas
começaram a formar as suas famílias. Parei de olhar para o Matthew como
o meu igual e parei de ver todas as qualidades que causaram a que eu me
apaixonasse por ele - a sua inteligência feroz, o nosso sentido de
humor comum, e a sua determinação de não seguir a manada. Em vez disso,
comecei a olhar para ele como alguém que estava a impedir o avanço.
Encorajei-o a encontrar uma carreira profissional e fiquei muito feliz
quando, no ano de 1995, ele aceitou alistar-se às forças policiais.
Esse deveria ter sido um novo capítulo nas nossas vidas mas isso só
acelerou o fim. Inicialmente nós estávamos juntos todas as noites e
todos os fins de semana, mas depois mal nos víamos. Matthew fazia
turnos e mais turnos ao mesmo tempo que eu trabalhava longas horas para
dar início a mais uma revista.
A nossa vida sexual diminuiu e as nossas noites juntos eram raras.
Parei de apreciar as pequenas coisas que ele fazia, como deixar
bilhetes românticos na almofada ou procurar livros em segunda mão que
ele sabia que eu gostaria. Ele era o meu melhor amigo, mas eu não lhe
dei valor.
Depois de perturbá-lo durante semanas devido às suas falhas, eu disse
ao Matthew que eu ia-me ambora. Passamos horas a falar e a chorar à
medida que ele me tentava convencer a ficar, mas eu estava decidida. Os
meus pais ficaram horrorizados com facto de eu abandonar o homem que
eles sentiam ser o homem certo para mim. Ainda sou assombrada pelas
palavras do meu pai:
Karen, pensa bem no que estás a fazer. Há muita coisa que pode ser dita de alguém que te ama de verdade.
Mas eu recusei-me a ouvir, convencida de que existiria outro alguém, um Sr Certo melhor, à espera logo ao virar da esquina.
Mudei-me para um apartamento alugado a poucas milhares de Hornchurch,
Essex, e mergulhei na vida de solteira de forma decidida. Por esta
altura, eu era editora duma revista nacional. A vida era uma longa
série de estreias, e jantares ou festas. O Matthew e eu permanecemos
perto um do outro, chegando até a dizer um ao outro dos nossos novos
relacionamentos. Mas embora eu tivesse acabado com tudo, eu nunca senti
que as mulheres que ele conhecia eram suficientemente boas para ele.
Hoje posso ver que eu estava agir com base na minha inveja. Claramente,
eu queria manter o Matthew para mim.
A nossa proximidade foi, no entanto, finalizada no ano de 2000 quando
ele conheceu a sua primeira namorada séria depois de mim, a Sara. Numa
noite, depois de fazer 34 anos, liguei para lhe pedir conselhos em
torno dum assunto. O Matthew agiu de uma forma anormalmente abrupta e
pediu que eu nunca mais lhe ligasse.
Por
favor, nunca mais me mandes cartões de aniversário ou cartões de Natal.
A Sara abriu o teu cartão que chegou na semana passada e ficou
genuinamente zangada. Eu tenho que colocar os sentimentos dela em
primeiro lugar.
Odiava o facto do Matthew subitamente colocar outra mulher antes de mim. Como é que ela se atreveu a meter-se entre mim e ele?!!
Tenho vergonha em confessar isto, mas durante as semanas que se
seguiram, descontei a minha raiva aos dois numa série de telefonemas mais
acalorados. Eu estava a agir de uma forma totalmente irracional uma vez
que não queria o Matthew de volta mas sentia que a Sara me tinha tirado
do palco. Sem surpresa alguma, depois duma discussão mais desagradável,
o Matthew desligou o telefone e recusou-se a receber qualquer
telefonema meu. Eu não sabia na altura, mas eu nunca mais falaria com o
Matthew outra vez.
Pouco depois disto tudo, conheci o Richard naquele que foi um
romance-furação. Passado que estava um ano, nós estávamos noivos e a
comprar uma fazenda idílica na zona rural de Norfolk ao mesmo tempo que
eu dava continuidade à minha carreira como jornalista, viajando com
frequência para Londres. Ele era um cantor bem sucedido, e à medida que
viajávamos pelos país, eu pensei que finalmente havia encontrado a
excitação e o amor que tanto desejava.
Mas o Matthew nunca estava longe dos meus pensamentos, e o Richard
queixava-se de que eu trazia com frequência o nome dele para as
conversas, chegando até a compará-los. Eles eram tão diferentes. Embora
fosse romântico de forma extrovertida, o Richard era repetidamente
infiel e eu nunca me senti segura para começar uma família com ele.
Eventualmente, e depois de termos estado 3 anos e meio juntos, Richard
abandonou-me depois de ter admitido ter engravidado a sua mais recente
amante.
A minha vida ruiu.
Durante o ano que se seguiu, lutei para me recompor e fiz uma intensa
busca dentro da minha alma. Finalmente entendi o que o meu pai queria
dizer a apercebi-me que o Matthew era a única pessoa que me tinha amado
e que me entendia. Quando ouvi através duma amiga mutua que ele se tinha
separado da Sara, escrevi-lhe uma carta, pedindo perdão e pedindo uma
segunda chance.
Tinham-se passado seis anos desde a última vez que tínhamos falado, e
eu inocentemente acreditei que ele gostaria de ter notícias minhas. O
que eu não sabia é que a Sara ainda vivia na casa e foi ela quem abriu
a minha carta pessoal. Essa carta tinha consigo o meu número de
telefone, e ela deixou-me várias mensagens de voz zangadas e ofensivas.
Mais uma vez, eu tinha inadvertidamente causado problemas na vida do
Matthew, e como tal, não me surpreendeu o facto de nunca mais ter
ouvido algo da sua parte, apesar de lhe ter escrito várias vezes nos
meses que se seguiram. No final, deixei cartões de aniversário de de
Natal, pensado que ele arranjaria uma forma de entrar em contacto
comigo, se mudasse de opinião.
Por fim, há alguns anos atrás ouvi que
ele se havia casado com a sua nova parceira, a Nicola. Por alguns
momentos, não consegui respirar, e logo a seguir as lágrimas começaram a cobrir a minha cara. O Matthew e
a Nicola ainda vivem em Essex, e segundo sei, ainda não têm filhos.
Esse é outro marco que temo. Já se passaram 11 anos desde que eu e o
Matthew falamos, e tenho que aceitar que essa porta fechou. Talvez ele
tenha encontrado o que buscava, e eu seja uma memória distante.
Depois do Richard, eu tive mais um relacionamento sério - com o Rob -
mas ele terminou depois de 4 anos. O Rob fazia-me lembrar muito o
Matthew. Ele era decente e honrado, o centro das atenções das festas
mas com um lado sensível e gentil, mas tanto eu como ele estávamos
demasiado gastos com as desilusões anteriores para que o relacionamento
funcionasse.
E mais uma vez, estou por minha conta, com a mente cheia de
"Se eu
tivesse...". Se eu tivesse ficado com o Matthew, quase de certeza que
estaríamos casados e com filhos. Ou então o Matthew não era o homem
certo. Nunca saberei a resposta, mas, de modo definitivo, a minha
decisão de o deixar custou-me a hipótese de alguma vez vir a ser mãe.
Hoje, só posso olhar para trás e advertir-me a mim própria, quando era
jovem e egoísta.
Quando visito amigos e membros da família na nossa cidade natal, não
posso deixar de desejar que eu me cruze com o Matthew. Eu gosto de
pensar que eu diria "Desculpa", e que eu sempre estaria disponível para
ele. Mas não me surpreenderia se ele me voltasse as costas e
continuasse a andar.
Para aqueles que estão à beira de abandonar relacionamentos monótonos,
a esses eu digo: não confundam o contentamento com a infelicidade com
eu fiz. Essa pode ser a opção que gere em vós um arrependimento que
pode durar o resto das vossas vidas.
Fonte: http://ow.ly/qdJ5A.