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domingo, 4 de janeiro de 2015

Confissões dum relutante guerreiro cultural

Por Robert Tracinski

Até bem pouco tempo atrás estive a trabalhar nas principais histórias de 2014, o que me deu a possibilidade de olhar para trás, para as coisas que escrevi, e ter uma noção do que foi realmente importante este ano, e também ver se fiz um bom trabalho de resposta a essas histórias importantes.

O que me surpreendeu imenso este ano [2013] foi ver o que tomou um dos lugares principais - lá, bem entre o nojento regresso de políticas raciais e a ascenção do Estado Islâmico (durante o colapso da política externa de Obama). Foram: as "guerras culturais"," as actuais batalhas em torno do aborto, liberdade religiosa, e feminismo radical.

Durante a maior parte da minha carreira como escritor, estive relutante em tomar parte nas "guerras culturais" principalmente porque não me identificava com nenhum dos campos em guerra. Como ateu, não anseio pelo regresso da tradicional moralidade religiosa, mas como um individualista, nunca dei o meu apoio às estranhas cruzadas dos grupos-vítima da Esquerda.

Durante a maior parte do meu tempo, dediquei-me a argumentar em favor dum governo menor, apontando para o fracasso do Estado-Providência, e impedindo que os ambientalistas colocassem um ponto final na civilização industrializada - coisas menores como essas. Ah, sim, e a guerra - não a "guerra cultural", mas a guerra guerra, aquela onde as pessoas de facto estão a tentar matar-te.

Portanto, durante a maior parte, a minha posição em relação ao casamento [sic] homossexual pode ser resumida com algo do tipo, "Será que já podemos discutir outra coisa?" Isto deve-se, parcialmente, à minha visão minimalista do governo, que defende que algumas coisas - na verdade, a maior parte das coisas, e virtualmente todas as coisas que são realmente importantes - devem ser mantidas fora do âmbito da política. Isto claramente inclui a vida sexual das outras pessoas, algo que eu gostaria de saber muito menos do que é normalmente aceite hoje em dia.

Mas durante este ano, descobri que embora eu não estivesse interessado na guerra cultural, a guerra cultural estava interessada em mim. E não só em mim, mas em todos nós. Este foi o ano em que fomos avisados que não teremos permissão para observar as coisas de fora, visto que não teremos permissão para pensar de maneira diferente da forma como pensa a Esquerda.

E como foi que descobri isto? Primeiro, eles vieram buscar os Cristãos, em casos legais que tinham como propósito forçar os crentes conservadores a disponibilizar contraceptivos abortivos e a participar em cerimónias de casamento [sic] homossexual. Eu disponibilizei o argumento do porquê um ateu ter que batalhar até à morte em favor da liberdade religiosa dos Cristãos
A História já mostrou que a única forma de batalhar em favor da liberdade de pensamento é defendê-la cedo, quando ela se encontra ameaçada na vida  dos outros - mesmo em favor de pessoas com quem se discorde, e mesmo em favor de pessoas por quem se nutra um desprezo profundo. Devido a isto, estou disposto a lutar em favor de pessoas que são muito piores, segundo os meus padrões, que o Cristão comum. 
É como o antigo poema do Pastor Niemöller, excepto que desta vez é: "Primeiro, eles vieram buscar os Cristãos." Não olho para a ameaça de coação como algo a ser feito aos retrógrados Cristãos longe de mim. Eu olho para isso como algo que pode igualmente, e facilmente, ser feito a mim. 
E será feito, se levarmos em conta os princípios que foram estabelecidos durante a campanha contra e lei da liberdade religiosa no Arizona, e nas audiências d Tribunal Supremo em torno do caso Hobby Lobby. 
No único comentário que eu fui forçado a fazer no passado, em relação ao casamento [sic] homossexual - há tanto tempo atrás que nem posso disponibilizar um link para o mesmo - expliquei a minha ambivalência citando as minhas preocupações com o facto da Esquerda estar a usar este assunto para assegurar para si o imprimatur do Estado para os relacionamentos homossexuais de forma a que a Esquerda pudesse usar as leis em torno da anti-discriminação como cacete com o qual atacar as fortalezas religiosas.

Foi exactamente isto que aconteceu este ano com o início da inquisição secular que chegou até a exigir que os clérigos Cristãos oficializem casamentos [sic] homossexuais.
Isto pode ser difícil de lembrar agora, mas há não muito tempo atrás, ocorreram propostas tendo em vista a um acordo em torno das "uniões civis" entre pessoas do mesmo sexo que, legalmente, eram equivalentes a um casamento mas sob outro nome. Os activistas homossexuais conscientemente rejeitaram estas uniões como forma de exigir de modo específico o uso do termo "casamento", insistindo que o Estado reconheça e legalmente faça cumprir a igualdade destes casamentos com os antiquados e fora-de-moda casamentos heterossexuais.. 
Basicamente, a teoria por trás casamento [sic] homossexual era a teoria de toda a Esquerda secular: a sociedade e o Estado são as todas-poderosas forças sobre as quais a vida do indivíduo reside, e a tarefa política mais importante - na verdade, a mais importante tarefa da vida - é colocar este poder irresistível do nosso lado. Mas tu obtenhas poder social e político, agarras-te a ele fazendo com que os teus pontos de vista favoritos se tornem obrigatórios, uma espécie de catecismo que todas as pessoas têm que afirmar, ao mesmo tempo que suprimes todos os pontos de vista heréticos. 
Neste caso, como forma de obter a aceitação social do homossexualismo, fazes com que a oficialização de casamentos [sic] homossexuais seja obrigatória ao mesmo tempo que suprimes oficialmente qualquer ponto de vista religioso dissidente.
O problema básico da concepção esquerdista da liberdade é que eles não têm uma concepção da liberdade.
O conceito operacional de liberdade da Esquerda é que tu tens permissão para fazer o dizer o que quiseres, desde que fiques dentro dum determinado intervalo de desvios socialmente aceites. 
O propósito da campanha em favor do casamento [sic] homossexual nada mais é o de alterar os parâmetros desse intervalo, estendendo-o de modo a incluir os homossexuais, os queers, os transgéneros -  e excluir qualquer pessoa que pense que o homossexualismo é pecado ou qualquer pessoa que queira preservar o conceito tradicional de casamento. Estas pessoas são declaradas como pessoas vazias de protecção legal, e, de facto, terão todo o peso da lei sobre si até que eles por fim coloquem de parte os seus pontos de vista socialmente inaceitáveis. 
O ponto aqui não é se existe acordo sobre quais os pontos de vistas que devem ou não ser socialmente aceites. O ponto aqui é que isto não é um conceito de liberdade, mas sim um regime de ideias controladas pelo Estado, amaciadas através duma zona amorfa de tolerância oficial.

É por este motivo que estou interessado na controvérsia. O meu ponto de vista em relação ao casamento [sic] homossexual pode ser resumido desta forma "não me interessa". Eu não sentiria qualquer necessidade de dizer algo em torno disso, não fosse a insistência dos defensores do casamento [sic]
homossexual a declarar que todas as vozes contrárias devem forçadas a se submeter. 
Parece que tínhamos razão em ficarmos preocupados. O ano que passou testemunhou o início duma nova onda de "politicamente correcto", proclamada através dum incidente bizarro que ficou conhecido como “ShirtStorm.” Esta foi a breve controvérsia em torno dum cientista Britânico que foi atacado pela sua "misoginia" devido ao facto de ter supervisionado o pouso duma sonda espacial num cometa - um gigantesco sucesso científico - enquanto usava uma camisa que era ofensiva para as feministas.

Eu extraí algumas importantes lições em torno de caso, incluindo o facto d' "Elas não estarem a perseguir só os rapazes das fraternidades [universitárias]."
Para se ser acusado de misoginia, não é preciso ser um "irmão" bebedor de cerveja, que ocupa as férias de Primavera sendo juiz de concursos de t-shirt molhada. Agora, elas [as feministas] estão a perseguir os geeks, e até os hipsters.
Portanto, primeiro eles vieram atrás dos Cristãos, depois dos geeks, e depois os hipsters . Para além disso, "A nova ortodoxia é total."
Isto é o "politicamente correcto" na sua forma mais pura: "o pessoal é o político". Não existe área alguma da vida onde o comportamento próprio, e até o gosto estético, não pode ser ditado segundo preocupações políticas. É preciso que alguém te diga o que vestir, que músicas escutar, que jogos de vídeo podes jogar (que, segundo sei, é um dos assuntos em torno do GamerGate), o que tens permissão para dizer a uma mulher enquanto ela caminha pelas rus (se é que tens permissão para dizer alguma coisa), e assim por diante.
Incidentalmente, o GamerGate é uma historia que não comentei este ano visto que não sou um "gamer", e já não sou um desde os dias em que fiz download do jogo "Doom" a partir duma disquete de 3 polegadas e meia. Devido a isso, tenho olhado para o assunto como um estranho, tentando entender o que está a acontecer dentro da subcultura dos jogos de vídeo. Segundo aquilo que já consegui recolher, o GamerGate é uma revolta dos consumidores contra jornalistas e revisores de jogos de vídeo que tentam forçar nos leitores a agenda dos "guerreiros da justiça social".

Acho que é melhor eu inteirar-me mais com os pequenos detalhes porque o que se segue é o “MetalGate“ - um tentativa de domesticar a música Heavy Metal sob o jugo politicamente correcto.
E eles estão também a perseguir os nossos filhos, queixando-se dos “brinquedos de género”, o que nos leva até às insanas novas fronteiras do feminismo moderno, incluindo um novo, e puritano, código de conduta sexual imposto na Universidade da Califórnia, que "parece ter sido escrito por monges celibatários", tal como escrevi.
Tudo isto tem a aparência de puritanismo neo-Victoriano, onde o desejo sexual é olhado como algo suspeito e perigoso, mas com um toque feminista moderno: o desejo masculino é suspeito e perigoso.

A Revolução Sexual transformou-se numa estranha imagem reversa do Puritanismo. A contra-cultura reteve todas as premissas básicas - que o sexo é algo sujo, nojento, um acto puramente materialista sem qualquer significado psicológico ou espiritual - excepto que eles eram a favor disso. Devido a isto, eles acabaram com os antigos códigos de cavalheirismo, eliminaram o papel da universidade como um acompanhante in loco parentis, e criaram uma cultura universitária de encontros românticos embriagados com a duração duma noite.
 
Só que eles descobriram agora que esta cultura tem um lado sombrio, especialmente para as mulheres jovens, e consequentemente estão a criar um novo e modernizado sistema de puritanismo.
Durante este ano, não fui só eu que reparei nesta nova tendência. As feministas estão a saudar isto como "o ano em que as mulheres se vingaram", o que nos dá uma ideia do jogo de poder que está a ocorrer aqui.  Se este foi também o ano em que o jornalismo foi totalmente tomado de assalto pela mania de preservar a "narrativa" à custa dos factos - especialmente no amplamente publicitado caso da falsa alegação de violação da Universidade de Virginia - o feminismo frequentemente disponibilizou a narrativa que eles estavam a tentar preservar.

Portanto, este foi o ano em que aprendemos que não podemos evitar a "guerra cultural" porque eles [os Esquerdistas] estão a trazer essa guerra até nós, e que todos os aspectos da nossa vida serão reformulados de modo a que sejamos mais tracejáveis.

Mas este foi também o ano em que me apercebi que existem bons motivos para mergulhar de cabeça na guerra cultural. O próprio motivo que faz com que muitos de nós estejamos relutantes em entrar na batalha - o facto de não nos ajustarmos de forma perfeita em nenhum dos lados - é precisamente o motivo de sermos desesperadamente necessários.
 
Ao disponibilizar as ideias que eu gostaria que a maior parte dos leitores da Direita aprendessem com Ayn Rand, apercebi-me que um dos items mais importantes era "uma terceira alternativa dentro da guerra cultural."
O maior obstáculo para uma leitura justa aos livros de Ayn Rand é o facto dela não cooperar com muitas das categorias-padrão que nos são frequentemente oferecidas.… Provavelmente a categoria mais importante que ela colocou em causa encontra-se capturada na expressão, "Se Deus está Morto, então tudo é permitido." Que significa: se não existe uma base religiosa para a moral, então tudo é subjectivo.

Basicamente, a Esquerda cultural aceita esta alternativa, e junta-se ao subjectivismo (isto, claro, quando eles não estão a tomar medidas excessivas cambaleando de volta rumo ao seu código politicamente correcto neo-Puritano). Então, a Direita religiosa responde afirmando que a única forma de parar com a maré "tudo vale" é um regresso à aquela religião de tempos idos.
 
Isto faz com que muitas pessoas busquem uma terceira alternativa. Como defensor da moralidade secular, foi precisamente isto que Ayn Rand ofereceu.
Foi por isto que me esforcei de modo específico para reclamar a posição cultural elevada da ciência, que tem sido totalmente e imerecidamente reclamada pela Esquerda. Devido a isto, as minhas contribuições para a campanha do The Federalist como forma de expor Neil deGrasse Tyson, o guru oco da cultura geek falsa, que tem o hábito de ser bem liberal com os factos.
Falar ruidosamente em torno da fidelidade aos factos, ao mesmo tempo que usa o mantra jornalístico "falso mas genuíno", envia a mensagem de que os factos não contam para nada. O que realmente conta é o teatro de se ser pró-evidencia e pró-ciência, e olhar de cima para abaixo para os oponentes, qualificando-os de ignorantes e patetas anti-ciência.

Se Tyson parece estar estupefacto com as críticas feitas às suas fabricações, e não as leva a sério, então o que ele nos está a dizer é que ele é um director de circo. Não é suposto nós questionarmos se os eventos que ele menciona são reais, ficcionais, ou embelezados; é suposto nós apenas apreciarmos o espectáculo. É aquele princípio científico com o nome de suspensão da crença.
O propósito aqui é o de reclamar a ciência e o código da racionalidade em prol da liberdade e do individualismo, que é o único credo genuíno dos “geeks.”
Os geeks - os verdadeiros, e não os hipsters - passaram muito da sua vida marginalizados e ignorados. Eles não se sentem bem em parte alguma. Eles gostam de coisas diferentes, pensam e falam de maneira diferente, e olham para o mundo de forma diferente. E precisamente por isso é que eles inventam coisas novas que mais ninguém havia inventado antes deles.

O inventor excêntrico e pensador fora-de-ritmo é um dos arquétipos do individualismo Americano. Somos intrusos, não seguimos s regras normais, e temos como finalidade comportar-mo-nos mal. Devido a isso, porque é que não ficaríamos cépticos dum Estado paternalista?
 
Muitos de nós obviamente que estamos. Devido aos meus interesses, pelo menos metade dos meus amigos com sólidas credencias geek são também Objectivistas. Afinal de contas, Atlas Shrugged é mais um livro que apela aos jovens não-conformistas inteligentes. Mas temos a esperança de que um dia desses o resto dos nossos amigos se apercebam do lugar onde eles pertecem.
É por isso que durante este ano escrevi muito mais sobre a guerra cultural do que esperava (e os excertos de cima são apenas amostras). Tornou-se uma necessidade urgente empurrar para trás o ressurgimento do politicamente correcto totalizador, criar espaço para a liberdade para discordar - e estabelecer as linhas orientadoras do que tem a aparência duma terceira via dentro desta guerra cultural.

Porque depois de 2014, ninguém vai poder ficar à margem.

- http://goo.gl/d4TQZK


* * * * * * *

As palavras de Robert Tracinski  podem ser resumidas em algumas frases: não existem posições neutrais numa guerra contra o mal (e a guerra contra o Esquerdismo militante certamente que é uma guerra conta o mal). Em 2015, tal como descobriu Tracinski, quer se seja Cristão, ateu, agnóstico - quer se seja branco, vermelho, castanho, amarelo ou negro - não teremos permissão para ficar, confortavelmente, em cima do muro, fingido estar acima de tudo, porque a Esquerda totalitária não deixará.

Se ser moderado, tolerante, neutral e desinteressado não salvou os Judeus da Alemanha, e se não salvou os camponeses na China, e se também não salvou os agricultores da União Soviética, de maneira nenhuma isso te irá salvar durante o século 21.

Quando os Guerreiros da Justiça Social dizem que "não existe mais lugar" para várias formas de pensamento com o qual eles não concordam, o que eles querem dizer é que  tu, como portador inabalável desse pensamento, não tens lugar no Admirável Mundo Novo que eles estão a criar.

Fica ao critério de cada um determinar a forma através da qual os Esquerdistas tencionam acabar com tais pensamentos contrários à sua ideologia, junto de pessoas que não querem deixar de ter esse tipo de pensamentos. Se não é possível eliminar uma ideologia sem eliminar os portadores da mesma, a escolha do Esquerdista militante é clara. 



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O ilusionista Herbert Marcuse


Por Robin Phillips

Os antigos Gregos tinham uma escola de filósofos, conhecidos como os Sofistas, que se orgulhavam da sua habilidade de poderem validar coisas impossíveis. Alguns sofistas contratavam-se mutuamente em eventos públicos, onde as audiências os poderiam observar, encantados, à medida que eles procediam provando proposições que eram manifestamente falsas.

O filósofo Gorgias (4º século antes de Cristo) inventou um argumento engenhoso como forma de provar que nada existia; e mesmo se alguma coisa existisse, nada se poderia saber sobre isso; e mesmo se alguma coisa existisse e se se pudesse saber algo sobre isso, tal conhecimento não pode ser comunicado aos outros; e mesmo se alguma coisa existisse e se se pudesse saber algo sobre isso, e se tal conhecimento pudesse ser comunicado aos outros, não existia qualquer tipo de incentivo para comunicar aos outros.

Seria bom se tal sofisma se tivesse limitado aos antigos Gregos, mas o século 20 viu um pensador cuja falta de lógica rivalizou - e até suplantou - tudo o que alguma vez foi produzido pelos sofistas. O seu nome foi Herbert Marcuse (1898–1979), o guru da contra-cultura dos anos 60.

Marcuse é importante, não porque ele foi capaz de levar o sofismo para níveis distorcedores-da-verdade mais elevados, mas porque o seu pensamento distorcido tem sido formativo na definição do "senso comum" colectivo (ou, para ser mais acertado, a falta de senso comum) da nossa era.

Quão formativo? Em 1968, quando os estudantes de Paris se revoltaram, eles rasgaram os estandartes da cidade onde se liam "Marx/Mao/Marcuse." No seu prefácio do livro de Marcuse "Negations: Essays in Critical Theory" ["Negações: Dissertações em Torno da Teoria Crítica"], Robert Young disse que "entre os intelectuais puros, [Marcuse] foi o que teve maior efeito directo e profundo sobre os eventos históricos - mais do que qualquer indivíduo do século 20." 

A Escola de Frankfurt

Marcuse veio duma geração de intelectuais que havia experimentado a devastação da Primeira Grande Guerra. Esta guerra sem sentido, aliada à gripe Espanhola (que veio pouco depois e matou tantos quantos a guerra tinha destruído) produziu uma geração de intelectuais exaustos e cínicos, prontos para abraçar o falso optimismo do Fascismo ou do Marxismo. Muitos que adoptaram a última opção uniram esforços na Instituto para Pesquisas Sociais na Universidade de Frankfurt, Alemanha. (Antes disso, o Instituto tinha o nome de "Instituto para o Estudo do Marxismo"). O seu movimento caracterizava-se por uma visão política que veio a ser conhecida como "a Escola de Frankfurt".

Essa visão era essencialmente Marxista mas com uma variante. Enquanto que Marx acreditava que o poder encontrava-se junto daqueles que controlavam os meios de produção, a escola de Frankfurt alegou que o poder encontrava-se junto daqueles que controlavam as instituições de cultura. A escola veio a incluir sociólogos, críticos de arte, psicólogos, "sexólogos", cientistas políticos, e uma vasta gama de "peritos" dispostos a converter o Marxismo duma teoria estritamente económica para uma realidade cutural.

Marcuse foi um elemento-chave do movimento, juntamente com Theodor Adorno, Max Horkheimer, Erich Fromm, Walter Benjamin, Leo Lowenthal, Wilhelm Reich, Georg Lukacs, e muitos outros. Estes homens estavam desapontaddos com a sociedade e os valores tradicionais do Ocidente. Lukacs, que ajudou a fundar a escola, disse que o seu propósito era responder à questão: "Quem nos salvará da Civilização Ocidenta?"

"O terror e a civilização são inseparáveis," escreveram Adorno e Horkheimer no livro "The Dialectic of Enlightenment" ["A Dialética do Esclarecimento"]. A solução era, portanto, simples: destruir a civilização. Marcuse expressou o seu propósito da seguinte forma:

Podemos justificadamente falar duma revolução cultural visto que o protesto tem como alvo todo o edifício cultural, incluindo a moralidade da sociedade actual.

Lukacs via na "destrução revolucionária da sociedade como a única solução para as contradições da época," e alegou que "tal subversão dos valores não pode ocorrer sem a aniquilação dos antigos valores e da criação de novos valores por parte dos revolucionários."

Lukacs usou as escolas Húngaras como frente de batalha para incutir o niilismo cultural. Através dum curriculum de educação sexual radical, ele esperava enfraquecer a família tradicional. O historiador William Borst reconta como "as crianças Húngaras aprenderam nuances subtis do amor livre, actividade sexual, e a natureza arcaica do código familiar das famílias da classe média, que impediam o homem de ter prazer." 

Para a América

Quando Hitler se tornou chanceler em 1933, a escola de Frankfurt viu-se obrigada dissolver, realocando-se inicialmente em Genébra, e, mais tarde, vendo a maior parte dos seus intelectuais a fugir para os Estados Unidos, para a Universidade da Columbia, Tendo como ponto de partida essa universidade, as ideias da Escola de Frankfurt espalharam-se por todo o mundo académico Americano.

Superficialmente, a América pós-guerra parecia ser o último lugar do mundo onde esta filosofia anti-Ocidente obteria algum tipo de atenção. Afinal, todo o mundo Ocidental, mas especialmente a América, estava bem ciente da forma como o fascismo quase havia destruido a sua civilização. Os Nazis haviam ascendido ao poder numa moderna onda de neo-paganismo e tribalismo primordial que se apresentou como uma alternativa à cultura do Ocidente moderno. Devido a isto, e de certa forma, a derrota de Hitler representou o triunfo dos valores Ocidentais. Na América esta vitória foi seguida duma renovação do optimismo cultural característico do final dos anos 1940 e 1950, que, entre outras coisas, se manifestou no chamado "baby boom".

O génio da Escola de Frankfurt manifestou-se na sua habilidade de converter esta renovada confiança numa força com a qual sabotar a sociedade. A estratégia envolveu uma inteligente redefinção do fascismo como uma heresia de Direita. Segundo esta narrativa, o Nazismo havia sido a consequência duma sociedade impregnada com o capitalismo. ("Quem não estiver pronto para falar no capitalismo, dece também permanecer calado em relação ao fascismo", comentou o sociólogo Max Horkheimer.) As culturas que davam grande importância à família, à religião [ed: Cristianismo], ao patriotismo e à propriedade privada, foram declaradas canteiros do fascismo.

O revisionismo histórico atingiu o seu ponto mais elevado com Marcuse, que se estabeleceu como o mais conhecido membro do movimento devido à sua habilidade de efectivamente comunicar com os jovens. Marcuse foi adoptado como o guru intelectual do movimento hippie, e ele, em troca, disponibilizou à geração mais jovem uma corrente contínua de propaganda como forma de santificar os seus impulsos rebeldes. (Foi Marcuse que inventou o slogan "Make love, not war." ["Façam amor e não guerra"])

Para Marcuse, a única resposta ao fascismo era o comunismo. "Os Partidos Comunistas são, e assim continuarão a ser, o único poder anti-fascista," ele declarou. Por esta razão, ele apelou aos Americanos para não serem demasiado duros com as experiências totalitárias dos seus inimigos comunistas, assegurado que "a denúncia do neo-fascismo e da Democracia Social tem que ser superior a denúncia das políticas Comunistas." 

O Assobio e a Teoria Profissional

Os pensadores da Escola de Frankfurt ensinaram que aqueles que tinham uma visão conservadora, não só estavam errados, como eram neuróticos. Ao converter as ideias conservadoras em patologias, eles colocaram em marcha a tendência de silenciar os outros através do diagnóstico em vez do diálogo. A "psicologização" dos adversários políticos passou a tomar o lugar do debate. [ed: É precisamente por isto que os activistas lgbt tentam acabar com o debate em torno da sua agenda política qualificando os adversários de "homofóbicos", e também por isso que as feministas qualificam como "machista" toda a oposição que é levantada às suas destrutivas medidas sociais e sexuais]

Não foram só os seus adversários políticos que caíram sob o martelo da psicoanálise. Ao criarem a disciplina da "Teoria Crítica", a escola de Frankfurt foi capaz de desconstruir toda a civilização Ocidental. Em vez de demonstrarem que os valores do Ocidente eram falsos ou deficientes, eles diagnosticaram a cultura como inerentemente logocêntrica [isto é, focada no conhecimento], patriarcal, institucional, patriótica e capitalista. Nenhum aspecto da sociedade Ocidental, desde o asseio a Shakespeare, ficou imune à crítica. Mesmo o acto de assobiar foi alvo do desconstrucionismo de Adorno, que disse que o acto de assobiar indicava "controlo sobre a música" e era sintomático do insiduoso prazer que os Ocidentais tinham em "possuir a melodia."

Não se sabe se Marcuse devotou muito tempo em torno do assobio, mas o que realmente lhe deixava zangado era o trabalho. Um dia de trabalho honesto era das coisas mais repressivas da civilização que ele esperava debilitar. Como alternativa a uma profissão, Marcuse apelava para o que ele chamava de "a convergência entre o trabalho e a diversão."

O libído era a chave para a utopia pré-civilizacional. Marcuse fomentou o que ele chamou de "sexualidade polimorfa" que envolvia a "transformação do libído da sexualidade  constrangida sob a supremacia genital para a erotização de toda a personalidade." Mal esta transformação ocorresse, o trabalho profissional já não ocuparia um lugar tão importante no Ocidente. No livro "Eros e Civilization", Marcuse escreveu que "a ocupação laboral, que é a maior parte da vida dum indivíduo, é um tempo doloroso visto que o trabalho laboral alienado é a ausência de gratificação e a negação do princípio do prazer."

No seu livro "Intellectual Morons",  Daniel J. Flynn prestativamente compara a visão laboral de Marcuse com a de Marx:

Marx militava contra a exploração da força laboral; Marcuse era contra o trabalho laboral em si. Não trabalhem, façam sexo. Esta era a simples mensagem do livro "Eros and Civilization", lançado em 1955. As suas ideias revelaram-se extraordinariamente populares junta da incipiente cultura hippie da década seguinte. O livro forneceu a base lógica para a preguiça e transformou vícios pessoais degradantes em virtudes.

Esta elevação da preguiça incluia a rejeição consciente do "trabalho" de se manter asseado. Logo, Marcuse argumentou que aqueles que haviam regressado para um estado mais primitivo tinham que rejeitar a higiene pessoal e experimentar a liberdade de adoptar "um corpo impoluto da higiéne plástica."

Contradição

Flynn resumiu toda a filosofia de Marcuse quando ele alegou que Marcuse "pregava que a liberdade era totalitarismo, democracia era ditadura, educação indoutrinação, violência é não-violência, ficção é verdade." Tal como isto sugere, Marcuse era genial em "conferir conotações positivas a prácticas negativas." Este truque atingiu o ponto mais alto do discurso contraditório quando Marcuse alegou que a tolerância é, na verdade, intolerância, e vice-versa.

Conduzidos pelo sofismo de Marcuse, a noção da tolerância passou a significar exactamente o contrário do que significava no passado. A tolerância já não era o acto de permitir ou tolerar os pontos de vista e os valores de outra pessoa, apesar de não se concordar com ele. Esta era a noção defendida pelos liberais do Iluminismo e encapsulada na citação (falsamente atribuída a Voltaire), "Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de o afirmares."

Embora esta noção de tolerância, tal como qualquer outro tipo de liberdade, tenha os limites legais óbvios, ela fundamentava-se na ideia Cristã (nem sempre seguida na perfeição) de que nós devemo-nos evitar deportar, prender, executar ou humilhar aqueles cuja crenças, prácticas e comportamentos não são do nosso agrado (ou nós desaprovamos).

Marcuse qualificava a tolerância tradicional de "tolerância repressiva", que precisava de ser substituída pela "tolerância libertadora." De modo significativo, a tolerância libertadora envolvia "intolerância para com os movimentos da Direita e tolerância para com os movimentos da Esquerda." Os movimentos da Esquerda incluiam o activismo dos vários grupos que Marcuse encorajava a se auto-identicarem como oprimidos - homossexuais, mulheres, negros, e os imigrantes. Só os grupos minoritários tais como estes poderiam ser considerados objectos legitimos de tolêrancia. [ed: as mulheres não são uma "minoria" mas sim a maioria.]

Comentando este novo tipo de tolerância, Daniel Flynn escreveu:

Tolerar o que se gosta e censurar o que não se gosta obviamente que já tinha um nome antes do aparecimento de Marcuse. A isso dá-se o nome de intolerância. A palavra intolerância tinha má fama, e como tal Marcuse deu-lhe o nome do seu antónimo mais popular, tolerância. Esta palavra foi frequentemente modificada para "libertadora", "discriminadora", e "verdade". Mais corrupção da língua veio através da sua crítica aos practicantes da liberdade de expressão que ele identificou de "intolerantes".

O que emergiu da sombra desta nova tolerência foi um tipo de redistribuição intelectual. Em vez de redistribuir o capital económico da classe média para a classe operária, tal como Marx havia insistido, a nova tolerância buscava redistribuir o capital cultural. Marcuse não escondeu que esse era o propósito final, admitindo que ele elogiou "a práctica da tolerância descriminadora numa direcção inversa, como forma de mudar o equilíbrio entre a Direita e a Esquerda ao limitar a liberdade da Direita." Isto foi alcançado através de várias formas, incluindo o que Flynn descreveu de "ajuste de atitude", afectada pelo "condicionamento psicológico através do entretenimento, das salas de aula, de tabus linguísticos, e através de outros meios que transmitem a sua ideologia através da osmose."

Nos anos que se seguiram desde Marcuse, a noção de tolerância finalizou a sua metamorfose. Enquanto que segundo a antiga definição de tolerância, um homem tinha que discordar de algo para que pudesse tolerá-la, segundo o novo significado, não pode haver discórdia; em vez disso, a pessoa é forçada a aceitar todos os valores e pontos de vista como sendo todos eles igualmente legítimos (a óbvia excepção sendo o facto de não devermos tolerar a antiga noção de tolerância.)

Ao contrário de muitos dos seus descendentes filosóficos, Marcuse estava bem ciente do padrão duplo que ele estava a propor, não escondendo o facto de estar disposto a erradicar a liberdade académica como forma e alterar o equilíbrio de poder. Ele chegou a reconhecer que este seu novo modelo de tolerância envolvia "a remoção da liberdade de expressão e da liberdade de reunião aos grupos e aos movimentos que promovem políticas agressivas," ao mesmo tempo que "a restauração da liberdade de pensamento pode precisar de novas e rígidas restrições aos ensinamentos e às practicas presentes nas instituições de ensino que, através dos seus métodos e conceitos, servem para fechar a mente dentro do discurso e do comportamento estabelecido."

O que Marcuse estava a dizer é ainda mais radical do que a tese de Gorgias de que nada exista, e ela limita-se a isto: A liberdade de pensamento e a liberdade de expressão só podem ser atingidas através da rígida restrição do pensamento e do discurso.


Enquanto apelava para o "cancelamento do credo liberal da discussão livre e igualitária" (do seu ensaio "Tolerância Represiva"), Marcuse ajudou a debilitar o antigo slogan universitário lux et veritas. As universidades modernas, com o seu constante policiamento de ideias e as suas políticas de censura politicamente motivadas, recebeu a sua legitimização intelectual por parte de Marcuse. 

Consequências

Embora seja discutível se o pensamento de Gorgias alguma vez tenha sido levado a sério por alguém (muito menos por parte do próprio Gorgias), as ideias de Marcuse foram levadas tão a sério que formaram a base intelectual tanto do mundo académico da Esquerda como da máquina do politicamente correcto que lidera muito do viés contemporâneo dos média.

Gorgias sabia que estava a ser irracional mas ele fez o que fez como forma de se divertir ao demonstrar os seus poderes intelectuais. Marcuse também sabia que estava a ser irracional, mas ele acreditava que a irracionalidade era uma coisa boa. Para ele, a lógica era uma arma de dominação e opressão, enquanto que, segundo o que ele escreveu no livro "One Dimensional Man", "a habilidade de . . . . converter a ilusão em realidade e a ficção em verdade, são um testemunho da forma como a Imaginação se tornou um instrumento de progresso."

Marcuse passou por Harvard, Yale, Columbia, Brandeis, e pela Universidade da Califórnia em San Diego. Em cada uma destas instituições, ele pregou o seu "evangelho" do niilismo, onde os conceitos negativos e as palavras negativas foram transformadas em entidades positivas. Até a sua morte, em 1979, ele continuou a convencer as pessoas a "converterem a ilusão em realidade."

A coisa mais surpreendente disto tudo é que tantas pessoas tenham acreditado nas suas ilusões.




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