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terça-feira, 26 de abril de 2011

Para que se mediam os crânios dos padres?

Fonte

Jesuíta analisado

Entre as imagens de violência que ilustram a instauração do regime republicano em Portugal, sobressaem as que mostram as humilhações infligidas aos padres da Companhia de Jesus. Assaltados nas suas casas religiosas por fortes contingentes armados, presos, agredidos, insultados, expulsos do país, passaram ainda pela enxovalhante operação de medição dos seus crânios no posto antropométrico da Penitenciária de Lisboa, onde se faziam os estudos sobre a constituição física dos criminosos, para confirmação das teses em voga sobre as relações entre a criminalidade e as anomalias anatómicas.

Todos os países “modernos” tinham laboratórios antropológicos nas suas prisões, e embora Portugal não tivesse investido muito nesse domínio, o partido republicano, apóstolo dos métodos “avançados” e “científicos”, advogava a mais completa submissão da justiça portuguesa às teses de Lombroso e seus discípulos, que tinham conquistado a admiração de toda a Europa.

Na primeira semana de vigência do regime republicano, o ministro da justiça Afonso Costa, entrevistado por Joaquim Leitão, prometia um novo código penal, que daria “ampla satisfação a todas as theorias da moderna escola criminalista” (Joaquim Leitão, A Comedia Politica. Lisboa, Bertrand, 1910).

Criminosos Assimetrias antropometricas

A escola da Antropologia Criminal, fundada por Cesare Lombroso (1835 / 1909), afirmava que o criminoso é um ser diferente dos outros homens, não apenas nos aspectos psicológico e moral, mas também no anatómico. Examinando minuciosamente a configuração física de centenas de detidos nas prisões italianas, observou Lombroso que as lesões, disformidades e assimetrias nos corpos destes eram muito mais frequentes que no conjunto da população do país.

Daqui deduziu rapidamente uma relação de causa e efeito, presumindo que a deficiência moral conducente ao acto criminoso seria o resultado de uma lesão ou deficiência física, que afectaria a vida psicológica do criminoso.

As lesões ou anomalias anatómicas teriam consequências na vida psíquica destes “degenerados”, provocando a impulsividade, a irritabilidade, a aversão ao trabalho contínuo e disciplinado, e privando-os, ao mesmo tempo, do sentido moral que afasta as pessoas saudáveis do crime. O criminoso aparecia assim transformado em doente, vítima de lesões inatas ou adquiridas, e a sociedade vislumbrava uma esperança de tratar o criminoso, prevendo e evitando o crime.

Os estudos de Lombroso e seus discípulos tiveram profunda repercussão no pensamento social dos finais do século XIX. Apresentados com um grande aparato de estatísticas e medições precisas respeitantes à proporção que cada anomalia física podia desempenhar no mundo do crime, eram ao mesmo tempo acompanhados de sugestivas descrições da vida dos criminosos, da sua linguagem, das suas manifestações artísticas, das suas convicções religiosas, do seu apego a certas manifestações da vida primitiva, como as tatuagens.

Os pontífices da vida intelectual renderam-se à força dos números e ao profundo conhecimento que os antropologistas criminais pareciam ter do mundo do crime. O público mais vasto deixou-se conquistar pela sedutora hipótese de poder identificar o delinquente por meia dúzia de traços fisionómicos característicos. Em 1898 o popularíssimo “Almanach Hachette”, respondendo a inúmeros pedidos, explicava aos seus leitores como poderiam identificar à primeira vista o carácter dos seus criados.

O texto, ilustrado com uma dezena de retratos, correspondentes aos principais tipos fisionómicos, esclarecia os principais defeitos que se podiam esperar de cada um deles: os que indicavam a propensão para a bebida, os que eram indício de tendência para o roubo, os que denunciavam o perigo de maltratar as crianças, etc..

Criminosos

Os discípulos de Lombroso – Garofalo, Nordau, Ottolenghi e outros - acrescentaram às teorias do mestre novas observações, que pareciam especificar a ligação de cada anomalia física a certo tipo de crime, ao mesmo tempo que seleccionavam partes do corpo humano particularmente reveladoras das inclinações para a deliquência.

As assimetrias faciais e cranianas pareciam ser companheiras constantes dos criminosos. Nos narizes destes, “a obliquidade aparece a cada passo”. Segundo as estatísticas italianas, os mais assimétricos de todos os criminosos eram os violadores. A tez morena tinha “um lugar de destaque no mundo criminal”, e os olhos pequenos predominavam em todas as categorias de criminosos.

As características bucais e dentárias dos criminosos tinham merecido os “desvelados carinhos dos criminologistas”, mas as conclusões a que chegavam eram contraditórias. A orelha tinha a reputação de ser um autêntico índice de “perturbações psiquicas, intelectuais ou de degenerescencia hereditaria”.

A orelha em asa mostrava-se frequente nos criminosos, e as suas dimensões ou outras características podiam denunciar vários defeitos psíquicos. O “otómetro”, aparelho para medição de orelhas inventado por Frigerio, um dos discípulos de Lombroso, tornou-se instrumento indispensável em todo o trabalho de investigação criminal.

Criminosos Assimetrias antropometricas

Em suma, a escola da antropologia criminal conseguira impôr ao mundo moderno os seus métodos de investigação, e apesar dos resultados contraditórios a que se chegava à medida que proliferavam os laboratórios de antropometria, fizera vingar também a sua tese principal, afirmando a especificidade anatómica do criminoso.

Desta corrente intelectual tinha-se feito porta-voz em Portugal o Partido Republicano Português. Arauto do pensamento “positivo” e das mais modernas escolas de investigação científica, encontravam-se nas suas fileiras alguns dos primeiros adeptos e divulgadores da escola de Lombroso no nosso país.

A regeneração dos criminosos segundo os preceitos da antropologia criminal era um dos trunfos com que contavam os republicanos para ressuscitarem a “pátria moribunda”, tão furiosamente lamentada pelos seus poetas. Instalados no poder, não demoraram a confirmar a fidelidade à escola de Lombroso, mais por palavra que por actos, devido ao calor das disputas que abalaram o campo republicano e concentraram as energias desses reformadores sociais.

Mas em 1914 deu-se o primeiro passo para a conversão do aparelho penal português aos critérios “científicos” acatados por Afonso Costa: criou-se o Posto Antropológico da Penitenciária de Lisboa, sob a direcção do médico antropologista R. Xavier da Silva, dotado de material para as mais meticulosas medições de todas as partes do corpo dos criminosos.

Posto Antropológico

Dada, pois, a importância conferida aos trabalhos antropométricos, pode-se interpretar a humilhação infligida aos jesuítas como uma afirmação brutal do triunfo das escolas de pensamento “científicas”, tal como as entendiam os republicanos. E o simbolismo do acto ganhava significado por ser imposto áqueles que eram tidos por pilares das velhas formas de pensar, sustentos do pensamento teológico, da reacção e da monarquia.

Ao mesmo tempo, sujeitando os jesuítas a um exame que era reservado aos criminosos, satisfaziam-se as camadas populares do partido republicano, que durante anos tinham sido ideologicamente alimentadas por uma literatura em que o jesuíta fazia sempre o papel de criminoso.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Companhia de Jesus e o seu papel na infiltração comunista na Igreja Católica

Às avessas

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 22 de novembro de 2010

Se você lê com a dose esperada de ingenuidade as declarações de Mehmet Ali Agca na versão que O Globo publicou no último dia 11, fica com a nítida impressão de que descobriu finalmente a verdade sobre o atentado que quase matou o Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981. Quem encomendou o crime, diz Agca, não foi a KGB, mas o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Agostino Casaroli. O jornal carioca descreve Agca como “membro de um grupo de extrema-direita” e Casaroli como “uma das figuras centrais do esforço do Vaticano para defender a Igreja nas nações do bloco soviético”.

A conclusão, implícita mas nem por isso menos eloqüente, só pode ser uma: a maldita direita católica tramou o assassinato para frustrar a abertura diplomática do Vaticano para com o governo soviético.

Se ainda restasse um pingo de consciência jornalística no Globo, uma breve pesquisa teria bastado para informar ao autor da matéria que:

1. O cardeal Casaroli pode ter escrito no seu livro de memórias umas coisinhas quanto ao sofrimento dos cristãos na URSS, mas, no campo da ação prática, muito mais decisivo para o conhecimento das intenções humanas do que meras palavras, foi ele próprio o grande articulador da “abertura para o Leste”, um dos maiores responsáveis pelo ingresso em massa de comunistas no clero e, last not least, o cérebro por trás da grande operação de engenharia política destinada a esvaziar a Igreja da sua missão espiritual tradicional e transformá-la numa agência da Nova Ordem Mundial. Nos escalões superiores da hierarquia vaticana, ele era o protetor por excelência da Companhia de Jesus, criadora da “Teologia da Libertação” e quartel-general dos comunistas infiltrados na Igreja. De todos os altos dignitários da Igreja Católica na época, nenhum teve mais contatos com os governos comunistas do que ele. Se algo ele fez em favor dos católicos perseguidos, muito mais fez para submeter a Igreja Católica ao jogo comunista.

2. Embora Mehmet Ali Agca tivesse realmente participado de uma organização de extrema-direita, os “Lobos Cinzentos”, nos meses que precederam o crime ele esteve em intenso contato, não com a KGB diretamente, mas com o serviço secreto da Bulgária comunista. Contratar assassinos que serviram ao outro lado é prática quase obrigatória de organizações desse tipo quando desejam matar algum personagem famoso. O envolvimento búlgaro no atentado foi abundantemente provado pela repórter Claire Sterling no livro The Time of the Assassins (Henry Holt & Co., 1983), e uma negativa genérica de participação “da KGB”, sem qualquer menção à Bulgária, é com toda evidência mera desconversa.

3. O estado de guerra entre Casaroli e João Paulo II durante todo o reinado deste último é fato universalmente conhecido, e nessa guerra a “maldita direita” era representada pelo Papa, não pelo cardeal, que o grande conhecedor de intrigas vaticanas, Malachi Martin, no roman à clef que publicou sob o título Windswept House (“A Casa Batida pelo Vento”) retrata, sob o nome de Cosimo Maestroianni, como um ateu puro e simples.

Mesmo admitindo-se que a denúncia de Mehmet Ali Agca contra o ex-secretário de Estado seja verdadeira, coisa que não tenho a menor condição de afirmar ou negar, resta o fato de que o crime foi cometido a favor dos interesses comunistas e não contra eles. Com ou sem Casaroli, a mão assassina atacou pelo lado esquerdo. Mais uma vez O Globo brinda seus leitores com uma história contada às avessas.

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