domingo, 10 de agosto de 2014

Esquecer Max Horkheimer

Por Alex Kurtagić

Faz hoje [ed: 7 de Julho de 2014] 41 anos que Max Horkheimer morreu. Director do "Instituto de Pesquisas Sociais" entre 1930 a 1953, Horkheimer foi um dos líderes da Escola de Frankfurt, grupo que ficou identificado com a Teoria Crítica - uma mistura totalmente especulativa da psicanálise freudiana com o Marxismo.

Horkheimer nasceu no seio duma abastada e conservadora família de judeus ortodoxos e o seu pai, Moritz - próspero homem de negócios, dono de várias fábricas têxteis - esperava que o seu filho lhe sucedesse no leme.

Tendo em vista esse propósito, começando em 1910, Moritz começou a preparar Max para uma carreira nos negócios. Isto não era, no entanto, suposto acontecer; Max travou conhecimento com Friedrich Pollock num baile, e pouco depois disso, os dois deram início à sua amizade. Pollock havia sido criado por um pai que se havia afastado do Judaísmo, o que desde logo revela que de maneira nenhuma ele era tradicional.

Na sua história da Escola de Frankfurt, Rolf Wiggerhaus declara que a sua amizade [com Pollock] deu um ímpeto rumo à "emancipação" de Max do seu seio burguês e conservador. Com Pollock nos lemos:

Ibsen, Strindberg, e Zola - críticos naturalistas da sociedade burguesa; . . . Tolstoy and Koprotkin - revolucionários sociais que propuseram uma forma de vida marcada pelo asceticismo e pelo amor universal; . . .Os "Aforismos sobre a Sabedoria da Vida" de Schopenhauer, a "Ética" de Spinoza, . . . e a "Aktion" de Franz Pfemfert, que era uma forma de oposição literária à guerra e ao mundo burguês da Europa pré-guerra.[1]

Com o passar do tempo, Max rejeitou a carreira no mundo dos negócios, e ele e Pollock foram descritos como "comunistas". [2] Max começou por estudar psicologia, mas, enquanto se preparava para a sua tese de doutoramento, uma outra tese semelhante foi publicada noutro lugar, frustrando os seus esforços. Consequentemente, ele voltou-se para a filosofia, e completou as suas Habilitações dentro desta disciplina.

O trabalho do grupo de Horkheimer era pseudo-científico, que buscava, entre outras coisas, entender a "personalidade autoritária"; durante os anos 50 publicou o "estudo" homónimo, liderado pelo seu bom amigo e colega, Theodor Adorno, homem cuja forma de pensar era practicamente idêntica à sua.

De modo típico, o trabalho da Escola de Frankkfurt era tendencioso e cheio de padrões duplos. Por exemplo, o seu trabalho ignorou por completo o autoritarismo da Esquerda (embora a maior parte da Ásia e metade da Europa estivesse nas mãos de regimes comunistas brutais, com uma contagem dos mortos já na ordem das dezenas de milhões), e focou-se apenas no autoritarismo da Direita, que é tratado como uma desordem psiquiátrica. A conclusão do grupo, no entanto, era sempre sem nexo e sem apoio adequado das evidências empíricas.

De facto, o grupo era bastante hostil ao empirismo e à ciência positivista, e isso é evidente no livro de Horkheimer de 1947, "The Dialectic of Enlightenment", co-escrito com Adorno. O tom do livro é abstracto e assertivo, sem esforço algum de fundamentar as alegações. Tal como o livro de Adorno et al "The Authoritarian Personality",  este livro é levado a sério pelo mundo académico actual, e aparece na leitura curricular das universidades Ocidentais.

Visto que a Teoria Crítica obteve apoio dos académicos de todo o mundo Ocidental, o grupo de Horkheimer causou danos numa escala que é difícil de quantificar. O propósito da Teoria Crítica era o de sujeitar todo a sociedade Ocidental liberal à critica radical - da Esquerda. Reconhecendo que o Marxismo clássico estava mal preparado para a tarefa, visto que se focava exclusivamente na presumida oposição entre o capitalismo e o proletariado, eles focaram-se na construção dum novo enquadramento.

O trabalho do grupo de Horkheimer permitiu-lhes atingir uma expansão ilimitada dos grupos oprimidos, que incluíam agora vítimas do racismo, do sexismo, da homofobia, do anti-semitismo, e assim por diante. Isto tornou-se na fachada do projecto da Nova Esquerda, cujo "pai", Herbert Marcuse, e sem surpresa alguma, também veio da Escola de Frankfurt.

A essência da crítica Marxista ao liberalismo é o que de este último falhou ao não cumprir a sua promessa de igualdade; através do capitalismo, as sociedades liberais criaram e perpetuaram hierarquias. Logo, o Marxismo focou-se na igualdade. Mas isto resultou na tirania, no assassínio em massa, e na pobreza, e como era obviamente repressivo, ele não poderia derrotar o liberalismo do Ocidente - que, por contraste, havia produzido sociedades seguras, ricas e atraentes. De facto, Antonio Gramsci viu-se forçado a pensar em formas alternativas de se impor o comunismo nas democracias Ocidentais visto que todas as tentativas de revoluções comunistas haviam falhado. Por contraste, e embora se foca-se na igualdade, a Nova Esquerda era ostensivamente emancipatória - um lobo em pele de cordeiro - e isso constituiu um desafio muito mais bem sucedido.

O liberalismo não foi derrubado mas foi permanentemente alterado. Uma vez que mantinha a igualdade com um dos seus valores fundamentais, tal como toda a Esquerda, a Nova Esquerda não se poderia opor a apelos para uma maior igualdade (em princípio); a Nova Esquerda poderia, no entanto, acomodar-se. Devido a isto, o liberalismo alterou o seu ênfase na liberdade individual para a igualdade sem limites. Isto resultou numa síntese Hegeliana. O grupo de Horkheimer, portanto, tem que ser visto como um agente, ou um dos agentes-chave, que tornou possível esta transição. As suas teorias tenebrosas tornaram-se políticas comuns e posteriormente na ideologia estabelecida.

Superficialmente, muitas pessoas podem ter a ilusão de que isto é uma coisa boa, e certamente havia espaço para reformas e atitudes mais iluminadas em algumas áreas - nenhuma pessoa razoável iria negar isso - mas quando analisamos mais profundamente a situação, apercebe-mo-nos que a igualdade ilimitada - abordagem particular para a reforma - não criou uma sociedade mais justa e harmoniosa, mas sim uma guerra sublimada contra todos - com a politica da identidade, a política de género, a política de classes, e a política racial num permanente estado confrontacional, constantemente irritados por um sentido de queixa e injustiça histórica.

Semelhantemente, o mudança do ênfase da liberal igualdade de oportunidade para a Marxista igualdade de resultados significou que na luta contra o "privilégio" as políticas em uso não o eliminaram, mas simplesmente transferiram-no duma classe de cidadãos para outra classe: habilidades distintas significam que os mais hábeis têm que ser punidos de modo a abrir caminho para os menos hábeis, que se tornam então na classe privilegiada com um sentido de merecimento à medida que recebem prémios que não merecem. Pior ainda, nós já ouvimos falar de departamentos de ciência das universidades a deixarem de ser financiados, drasticamente reduzidos, ou fechados de todo, à medida que departamentos de igualdade e diversidade são ricamente iniciados, com o salário de apenas um oficial da igualdade a ser o suficiente para pagar dois pesquisadores do cancro.

A busca pela igualdade, então, não só privilegia aqueles que não merecem, mas causa também dor, sofrimento e até morte. No que toca os relacionamentos entre os sexos, hoje em dia em vez de termos mais casamentos felizes, temos mais divórcios, mais lares desfeitos, mais antagonismo entre os sexos, e guerra entre os sexos. Quão irónico que Horkheimer tenha nascido no dia de São Valentim. Nós somos capazes de continuar a listar as consequências. Os custos materiais têm sido incalculáveis, e os custos sociais ainda mais.

Segundo Wiggerhaus, o argumento principal de Horkheimer era de que aqueles que viviam em miséria tinham o direito ao egoísmo materialista. Ao mesmo tempo que Kevin MacDonald nota que Horkheimer eventualmente se reconciliou com a sua herança - abraçando mais uma vez a metafísica judaica, não podemos fugir â conclusão de que a cruzada anti-burguesa foi, essencialmente, uma rebelião subliminar contra o seu pai.

A rebelião contra a autoridade paterna é um dos temas do livro "The Psychotic Left", de Kerry Bolton, onde ele a ressalva como um traço psicológico dos igualitaristas militantes. Isto foi considerado pelo livro "The Authoritarian Personality" como algo saudável. No entanto, a visão de Horkheimer, particularmente mais no final da sua vida, carrega o estigma dum conflito interno.

Portanto, Max Horkheimer não é pessoa para ser lembrada mas sim alguém que tem que ser esquecida. Se o "Inferno de Dante" pinta um mapa acertado do lugar para onde os malfeitores vão depois da morte, o lugar de Horkheimer é no malebolge, juntamente com os facilitadores sexuais e os sedutores, os elogiadores, os simonistas, os adivinhos, os politiqueiros, os hipócritas, os ladrões, os falsos conselheiros, os fomentadores de discórdia, os falsificadores e os falseadores. A sua vida foi demasiadamente longa, e como tal temos que ficar gratos pelo facto da sua vida finalmente ter parado de causar males maiores. Quanto ao seu legado: melhor serviço seria prestado se o mesmo caísse no esquecimento de onde ele pode fazer algum bem como objecto de refutação.

Notas

1. Rolf Wiggerhaus, "The Frankfurt School: Its History, Theories, and Political Significance" (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1995), 42.
2. Ibid., 46.





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