"Quase
todos os desertores chegam a Hanawon com sintomas de paranoia. Falam
aos sussurros e envolvem-se em brigas. Têm medo de revelar nome, idade
ou local de nascimento. Seus modos, em geral, ofendem os sul-coreanos.
Tendem a não dizer 'obrigado' ou 'desculpe'.
Perguntas feitas
por caixas de banco sul-coreanos, que eles encontram em excursões para
abrir contas bancárias, com frequência aterrorizam
desertores. Eles desconfiam das intenções de quase todas as pessoas em
posições de autoridade. Sentem-se culpados em relação aos que deixaram
para trás. Angustiam-se, por vezes ao ponto do pânico, em razão de sua
inferioridade educacional e financeira em comparação com os
sul-coreanos.
Têm vergonha do modo como se vestem, falam e cortam o cabelo.

'Na Coreia do Norte, a paranoia era uma resposta racional a condições
reais e ajudava essas pessoas a sobreviver', disse Kim Hee-kyung, uma
psicóloga clínica que conversou comigo em seu consultório em Hanawon.
'Mas ela os impede de compreender como as coisas se passam na Coreia do
Sul. É um verdadeiro obstáculo à assimilação.'
Adolescentes que
vêm do Norte passam de dois meses a dois anos na Escola Secundária
Hangyoreh, um estabelecimento de ensino em regime de internato para
alunos com dificuldades, filiado a Hanawon. Ela foi construída em 2006
para ajudar jovens recém-chegados do Norte, cuja maioria é inapta para a
escola pública na Coreia do Sul.
Quase todos eles se esforçam
para aprender rudimentos de leitura e matemática. Alguns têm déficits
cognitivos, claramente em consequência de desnutrição aguda na primeira
infância. Mesmo entre os jovens mais inteligentes, o conhecimento de
história do mundo reduz-se essencialmente a histórias pessoais míticas
do Grande Líder, Kim Il Sung, e de seu querido filho, Kim Jong Il.
'A educação que se recebe na Coreia do Norte é inútil para a vida na
Coreia do Sul', disse-me Gwak Jong-moon, o diretor de Hangyoreh. 'Quando
a pessoa está com muita fome, não vai aprender e os professores não vão
ensinar. Muitos estudantes passaram anos escondidos na China, sem
nenhum acesso a escolas. Como crianças na Coreia do Norte, eles
cresceram comendo cascas de árvore e pensando que isso era normal.'
Durante excursões aos cinemas, jovens desertores muitas vezes entram em
pânico quando as luzes se apagam, temendo que alguém possa
sequestrá-los. Ficam aturdidos com o coreano falado na Coreia do Sul,
onde a língua foi contaminada por americanismos como syop’ing (shopping)
e k’akt’eil (coquetel).
Consideram inacreditável que dinheiro seja armazenado em k’uredit k’adus (credit cards; cartões de crédito) de plástico.
Pizza, cachorros-quentes e hambúrgueres — itens básicos da alimentação
de um adolescente coreano — lhes dão indigestão. O mesmo efeito é
provocado pelo excesso de arroz — o alimento básico de outrora, que na
era pós-fome se tornou comida de rico na Coreia do Norte.
Uma
adolescente na Escola Hangyoreh fez gargarejo com amaciante de roupa,
confundindo-o com antisséptico bucal. Outra garota usou sabão em pó como
farinha de trigo. Muitos alunos ficam aterrorizados quando ouvem pela
primeira vez o ruído de uma máquina de lavar em funcionamento.
Além de paranoicos, confusos e intermitentemente tecnofóbicos, os
desertores tendem a sofrer de doenças evitáveis e males quase
inexistentes na Coreia do Sul. Chun Jung-hee, enfermeira-chefe de
Hanawon há mais de dez anos, contou-me que uma alta porcentagem das
mulheres provenientes do Norte tem infecções ginecológicas crônicas e
cistos. Disse que chegam muitos desertores contaminados por tuberculose
que nunca foram tratados com antibióticos.
Eles também chegam comumente
com indigestão crônica e hepatite B. Muitas vezes é difícil diagnosticar
enfermidades rotineiras, contou a enfermeira, porque os desertores não
estão acostumados com médicos e desconfiam daqueles que lhes fazem
perguntas pessoais e prescrevem remédios. Homens, mulheres e crianças
têm problemas dentários graves resultantes de desnutrição e da falta de
cálcio em suas dietas. Metade do dinheiro gasto anualmente em cuidados
médicos em Hanawon vai para tratamento dentário protético. "
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Do excepcional "Fuga do campo 14", do jornalista americano Blaine
Harden, que narra a história de Shin Dong-hyuk, único sobrevivente até
hoje nascido e criado num campo de concentração norte coreano que
conseguiu escapar.