terça-feira, 30 de outubro de 2018

O fascismo tem origem no marxismo

Se acham que o fascismo não tem origens marxistas, façam o favor de desmentir as provas que apresento nos meus romances.

Por José Rodrigues dos Santos

A minha afirmação de que o fascismo tem origens marxistas parece ter incomodado algumas almas, incluindo políticos que, à falta de melhores argumentos, recorreram ao insulto baixo. Nada de surpreendente, até porque reconheço que a afirmação contradiz ideias feitas e por isso precisa de ser fundamentada – o que é feito ao pormenor em As Flores de Lótus e em O Pavilhão Púrpura. Para quem preferir ficar-se pela rama, deixo aqui as ideias essenciais da viagem do marxismo até ao fascismo.

O marxismo surgiu num contexto de cientifismo. Newton tinha descoberto as leis da física e Darwin as da selecção natural. Indo no encalço desses dois vultos, e também de Hegel, Marx e Engels anunciaram que haviam descoberto as leis da história. Tal como as leis da física e da biologia, ambos concluíram que as leis da história eram deterministas e independentes da vontade humana.

E que leis eram essas? Eram as do determinismo histórico, estudadas pela sua nova ciência, o socialismo científico (tão científico, na sua opinião, quanto a física de Newton e a biologia de Darwin). A ideia era simples: ao feudalismo sucede-se o capitalismo, cujas contradições levarão inevitavelmente os proletários à revolução que conduzirá ao comunismo. Nesta visão a história é teleológica e determinista. Não é preciso ninguém fazer nada, pois a revolução do proletariado é inevitável.

Os anos passaram e não ocorreu nenhuma revolução, o que contradizia a teoria marxista. Como explicar isto? Surgiram duas teses revisionistas. A primeira, do marxista alemão Bernstein, foi a de que afinal o capitalismo não ia acabar, o operariado até estava a melhorar o seu nível de vida e o socialismo podia perfeitamente adaptar-se ao capitalismo. Esta corrente cresceu no SPD alemão e acabou na social-democracia como a conhecemos hoje em dia.

A segunda tese teve origem no marxista francês Georges Sorel. Numa obra tremendamente influente, Refléxions sur la violence, Sorel concluiu que a revolução não era inevitável nem seria espontânea. Teria de ser provocada. Como? Usando uma elite para guiar o proletariado e recorrendo à violência. Seria a violência que desencadearia a revolução.

Foi o marxismo soreliano que conduziu ao bolchevismo e ao fascismo. Lenine leu Sorel e apropriou-se dos conceitos revisionistas da elite, a famosa “vanguarda”, e do uso da violência. O mesmo Sorel foi lido com atenção em Itália, em particular pelos sindicalistas revolucionários, marxistas que adotaram a greve e a violência como formas de desencadear a revolução. 

Em paralelo, um marxista austríaco, Otto Bauer, notou que no Império Austro-Húngaro os operários húngaros mostravam sentimentos de solidariedade mais fortes para com os burgueses húngaros do que para com os operários austríacos. Embora o marxismo fosse uma corrente internacionalista, Bauer buscou legitimidade nalgumas afirmações nacionalistas de Marx e Engels para lançar uma nova ideia revisionista. Concluiu ele que o comportamento dos operários húngaros mostrava que o sentimento de nação era afinal mais poderoso do que o sentimento de classe. O nacionalismo era revolucionário, argumentou, pois galvanizaria o proletariado para a revolução.

Esta ideia entrou em Itália pela pena de um marxista italiano de origem alemã, Roberto Michels, e influenciou os sindicalistas revolucionários italianos. Estes, contudo, enfrentaram a ortodoxia dos restantes marxistas, incluindo Benito Mussolini, o diretor do órgão oficial do partido socialista italiano, o Avanti!

Acontece que em 1911 ocorreu um acontecimento que iria abalar as convicções ortodoxas de Mussolini: a guerra ítalo-otomana pela Tripolitania. Mussolini opôs-se a essa guerra, mas ficou atónito com a reação do proletariado italiano, que exultava com as vitórias de Itália. Michels e os sindicalistas tinham razão!, concluiu Mussolini. As pessoas estão afinal mais dispostas a morrer pela sua pátria do que pela sua classe. 

Quando a Grande Guerra começou, em 1914, ocorreu uma cisão no movimento socialista. A Segunda Internacional tinha determinado que os operários dos diferentes países não entrariam em guerra uns contra os outros, mas na hora da verdade os socialistas alemães, franceses e britânicos apoiaram a guerra. Apenas os bolcheviques russos e os socialistas italianos se opuseram.~


O problema é que nem todos os socialistas italianos estavam de acordo. Os sindicalistas revolucionários queriam a entrada de Itália na guerra porque achavam que ela seria o forno onde se forjaria o sentimento nacional dos italianos, cujo país era novo e buscava ainda a sua identidade, e que seria o sentimento de nação que uniria o proletariado italiano e desencadearia a revolução. Ou seja, a guerra derrubaria o capitalismo.

Mussolini começou por manter a linha do partido e opôs-se à entrada de Itália na guerra, mas depressa deu razão aos sindicalistas e defendeu que os socialistas italianos deveriam seguir o exemplo dos socialistas alemães, franceses e britânicos e apoiar a guerra. Esta mudança de posição valeu-lhe a expulsão do partido.

Os sindicalistas revolucionários italianos, incluindo Mussolini, fizeram então a guerra – uma posição perfeitamente em linha com a de outros marxistas europeus, incluindo os do SPD alemão. Quando o conflito terminou, os sindicalistas marxistas italianos pró-guerra regressaram a casa mas foram antagonizados pelos marxistas italianos anti-guerra. Em conflito com estes, os marxistas pró-guerra fundaram o movimento fascista, com reivindicações como o salário mínimo, o horário laboral de oito horas, o direito de voto para as mulheres, a participação dos trabalhadores na gestão das fábricas, a reforma aos 55 anos e a confiscação dos bens das congregações religiosas. Serei só eu a notar que estas reivindicações fascistas têm origem marxista?

O seu pensamento foi entretanto evoluindo. Recorde-se que Marx e Engels consideravam que o capitalismo era uma fase necessária e imprescindível da história humana e que sem capitalismo nunca haveria comunismo. Os bolcheviques renegaram esta parte do marxismo quando preconizaram que na Rússia era possível passar diretamente de uma sociedade feudal para o comunismo, mas neste ponto os fascistas mantiveram-se marxistas ortodoxos ao aceitar que o capitalismo teria mesmo de ser temporariamente cultivado em Itália.

Noutros pontos os fascistas desviaram-se da ortodoxia marxista. Por exemplo, aproximaram-se do revisionismo bolchevista quando abraçaram a ideia soreliana da violência provocada por uma vanguarda e afastaram-se do marxismo e do bolchevismo quando aderiram à ideia baueriana de que o sentimento de nação era para o proletariado mais galvanizador do que o sentimento de classe. Isto levou-os a dizer que a luta de classes não se aplicava a Itália porque esta era já uma nação proletária explorada pelas nações capitalistas. A luta de classes apenas iria dividir a nação proletária, pelo que em vez de conflitualidade deveria haver cooperação entre classes. O chamado corporativismo.

O seu pensamento continuou a evoluir, sobretudo em consequência do Bienio Rosso, altura em que os comunistas italianos lançaram uma campanha de ocupação selvagem de fábricas e de propriedades rurais. Estes eventos levaram os fascistas a afastarem-se mais do marxismo, pois entendiam que estas ações enfraqueciam a nação, que designavam de “classe das classes”, ao ponto de começarem a proclamar-se anti-marxistas. Convém no entanto recordar que Mussolini esclareceu que o fascismo objetava ao marxismo não por este ser socialista, mas por ser anti-nacional.

udo isto está explicado, com muito mais pormenor, em As Flores de Lótus e O Pavilhão Púrpura, e curiosamente nada disto foi desmentido por ninguém. Os meus críticos limitaram-se a constatar que os fascistas se descreviam como anti-marxistas – e assim foi a partir de certo ponto. Mas isso nada me desmente porque nunca disse que os fascistas, na sua fase já amadurecida, eram marxistas. O que eu disse, e repito, é que o fascismo é um movimento de origem marxista – o que é verdade.

Se acham que o fascismo não tem origens marxistas, façam o favor de desmentir as provas que apresento nos dois romances. E, já agora, aproveitem também para desmentir que o fascismo alemão se designava nacional-socialismo. Como acham que a palavra socialismo foi ali parar? Por acaso?


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2 comentários:

  1. Como complemento a esses factos temos um video do Antony Sutton ( como o grande capital e seus agentes manobraram as ideologias com o objectivo de atingir um fim) https://www.youtube.com/watch?v=7GhPsJCXPqY

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  2. Vincular o Fascismo com Marxismo visa empiricamente combater o primeiro para salvar o segundo.

    "Segundo a escritura “Dottrina del Fascismo”, em 1932 após os primeiros anos de experiência de governo, Mussolini, define como doutrina, espírito ou princípios do fascismo resumido todo o conhecimento prático, a sua aplicação e a implementação planejada para o futuro. A partir do programa ausente na emergência do fascismo, registra-se uma visão de mundo que seviu mais como um guia prático para a ação do que uma filosofia teórica desenvolvida para isso. Uma afirmação centralizada e abrangente : “O Estado fascista é um RESUMO E UNIFICAÇÃO DE TODOS OS VALORES DA VIDA; confere significado à vida de toda população, fomenta seu desenvolvimento e fortalecimento.

    Desde a década de XX, a extrema esquerda, conforme orientações da INTERNACIONAL COMUNISTA – uma congregação global de partidos comunistas sob a liderança soviética – emprega o termo ANTI-FASCISMO para combater os vários adversários políticos, sem qualquer associaçao ao Fascismo real. Especialmente o termo FASCISMO HITLERIANO, completamente irrealista quanto ao Nacional Socialismo, e FASCISMO SOCIAL – ensejando a social democracia, revelam a distorção exacerbada. A dicotomia expressa no termo ANTI-FASCISMO foi sempre empregada por comunistas e outros extremistas de esquerda com uma arbitrariedade generalizada proposital para difamar uma gama de adversários além de encontrar parceiros dispostos a apoiarem suas práticas.

    O resultado concreto dessa perseguição é até hoje a Indústria Antifa: – centenas de diferentes iniciativas existentes:, grupos e órgãos consultivos, que paralelamente às perseguições às opiniões indesejadas recebem ainda apoio financeiro estatal em causa própria. Aliam-se com esquerdistas radicais antifascistas, que se apresentam como críticos do sistema , mas em verdade servem como infantaria dos poderosos para fazer o trabalho sujo.

    Fascismo” – jamais desenvolveu um dogma e, portanto, nunca quis, tipicamente como fazem os comunistas, perseguir os heréticos; o seu grau de violência 1919-1939 não foi além do que outros – também regimes democráticos, no contexto de guerras civis e coloniais, foram responsáveis . Em nenhum lugar o Fascismo alcançou o número de vítimas gerado pelo terror vermelho “. fonte: https://verbotenesarchiv.wordpress.com/2013/04/04/die-wahrheit-uber-den-faschismus/

    A história é dirigida pelo projeto de Deus, projeto sempre voltado para a liberdade e a vida. O destino de uma sociedade depende sempre da atitude que ela toma diante deste projeto: ou terá liberdade e vida ou produzirá escravidão e morte.

    A Alemanha perdeu a guerra https://katana17.wordpress.com/2016/10/01/book-the-myth-of-german-villainy-by-benton-bradberry-part-01/ e os vencedores - os COMUNISTAS/MARXISTAS/BOLCHEVISTAS - escravizarão o mundo. vide aqui https://www.e-reading.club/book.php?book=1020095 ao menos, o sexto parágrafo do terceiro capítulo: 'Revolução Russa' fato!!! lamentavelmente - não boato !!! vide TAMBÉM aqui em 03:30 > https://www.youtube.com/watch?v=atWInFwDth0 em seguida, pesquise no google e youtube tudo que houver sobre AGENDA 21 e ''a demarcação de território'', onde, conforme Olavo de Carvalho, ''as pessoas serão controladas como gado''

    "A civilização cristã ainda pode sobreviver se este livro for lido e sua mensagem for amplamente divulgada." Maj.-Gen., Count Cherep-Spiridovich http://antimatrix.org/Convert/Books/Spiridovich/Secret_World_Government/Secret_World_Government_Spiridovich.htm#PREVENT_THE_EDUCATION_OF_INCURABLE_IMBECILES

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