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domingo, 29 de junho de 2014

Varela, Cravo e Canela


"Raquel Varela é bem representativa de um modo de pensar e agir profundamente enraizado – e ainda mais institucionalizado – em Portugal. 
Se alguma coisa a distingue, não será o ser mais radical, mas antes o ter um discurso mais articulado e publicamente apresentável do que muitos dos seus pares que, pensando basicamente o mesmo, são ainda assim incapazes de o transmitir de uma forma minimamente compreensível e persuasiva. 
Nesse sentido, compreender quem é Raquel Varela é também um importante contributo para compreender o país que temos e o estado a que chegamos." - André Azevedo Alves in «Quem é Raquel Varela ?»

Raquel Varela, uma comunistóloga encartada, é hoje uma das melhores, senão mesmo a melhor, propagandista e contadora de estórias da carochinha que o regime abrileiro dos cravos falidos tem ao seu serviço. 

Colocada no altar da glória merdiátic@ pelos intelectualóides marxistas que desde 1974 têm tentado sequestrar as ciências sociais em Portugal, a Raquel Varela para além de ser uma contadora de estórias da carochinha e uma propagandista, é também uma excelente comediante que me faz rir a bandeiras despregadas de cada vez que abre a boca.

Desta vez a Raquel Varela surge num video (onde também surge o historiador Valério Arcary, mais um marxista lunático...) intitulado Quando o Impossível foi Inevitável 2014 a afirmar sem rodeios que "em 1961" começaram "as revoluções coloniais".[1] 

Mas quais "revoluções coloniais" pergunto eu?

Seriam mesmo "revoluções coloniais" como afirma Raquel Varela ou seriam, ao invés, operações de guerrilha apoiadas, financiadas e preparadas a partir de Moscovo e/ou Washington?

Qualquer historiador que seja intelectualmente honesto quanto baste e que se tenha debruçado sobre a temática da Guerra do Ultramar, sabe que nunca existiram quaisquer "revoluções coloniais" na África Portuguesa. O que existiu, isso sim, foram movimentos de guerrilha criados, financiados, treinados e operados a partir da União Soviética e dos Estados Unidos, superpotências estas que à época estavam a degladiar-se pelo controle de África e queriam a todo o custo arrastar os povos africanos para as suas respectivas órbitas de influência, independentemente dos custos sociais e humanos que tal pudesse acarretar.

Uma revolução implica sempre e necessariamente um levantamento em massa da população contra um dado regime. Ora, tal nunca sucedeu em nenhuma ex-província ultramarina portuguesa. Com excepção de alguns protestos e manifestações provocadas por exigências de índole económica, nunca existiu nenhum levantamento de massas na África Portuguesa que visasse a independência dos territórios que compunham a mesma.

Se Raquel Varela considera mesmo que existiu um tal movimento de massas, condição sempre necessária para uma revolução, então porque é que não nos mostra a todos alguns filmes ou fotografias desses levantamentos revolucionários?

Não mostra porque os mesmos simplesmente nunca existiram e a Raquel Varela sabe disso mesmo. O que se passou na África Portuguesa a partir de 1961 foi um complô soviético e estado-unidense que tinha como objectivo final arrastar os povos africanos para as respectivas órbitas de influência dessas mesmas superpotências.

O que se passa hoje na Ucrânia, foi precisamente o que se passou na África portuguesa a partir de 1961. A propaganda suja, os guerrilheiros inflitrados que surgem não se sabe bem de onde, a guerra da informação, os massacres, uns reais, outros fabricados para servirem de propaganda. Tudo isto vimos em África e hoje são estas mesmas tácticas (agora modernizadas...) que vemos em prática na Ucrânia, tanto por parte dos Estados Unidos e da União Europeia, como por parte da Rússia.

Pensem um pouco nisto tudo e não tardarão a perceber que a cassete abrileira e politicamente correcta sobre a guerra do Ultramar está cheia de mentiras e falsidades inomináveis que apenas continuam em circulação graças ao péssimo trabalho de informação prestado pelos merdi@ nacionais.

Tudo isto é triste, mas o mais triste ainda é sermos obrigados a sustentar com o dinheiro dos nossos impostos os centros de investigação e institutos espalhados de norte a sul do País, onde estes comunistólogos encartados actuam impunes e sem a devida oposição.

No fundo, Raquel Varela é mais um fruto da época delirante em que nasceu. Estávamos então em 1978, o País já estava em pós-PREC mas a propaganda marxista continuava fortíssima e muito infiltrada em tudo o que era estabelecimento de ensino. As lavagens cerebrais faziam-se com grande intensidade desde o ensino primário até ao ensino superior. Não foi por mera coincidência que a União Soviética investiu largamente no desenvolvimento da guerra psicológica e de propaganda, eles sabiam perfeitamente bem o que estavam a fazer...

Um dia no futuro, quando houver historiadores que queiram perceber a actual tragédia de Portugal, os mesmos terão de ter em especial conta esta geração nascida na década de 1970 e inícios dos anos 1980 que foi formatada pelos assim-chamados "valores de Abril" dos "amanhãs que cantam" que nos arrasaram económica e demográficamente e condenaram as gerações futuras a uma lenta descida ao inferno enquanto o seu País vai sendo progressivamente desmantelado de dia para dia.

Se Portugal hoje é uma Nação de rastos e incapaz de resistir à demência neoliberal que nos tomou a todos de assalto, é graças em grande parte à escumalha marxista que destruiu os alicerces económicos da soberania nacional logo durante o PREC. Pessoas que não tinham a mínima noção de como um País se governa ou de como se gere uma economia, foram de um momento para o outro projectadas para o poder. Mercenários e traidores à Pátria que num outro qualquer País decente seriam presos ou fuzilados, não tardaram a apossar-se de cargos-chave essências ao funcionamento da Nação.

Tudo isto foi feito em nome de uma "revolução" que começou numa madrugada em Abril e não tardou a encher a pança dos verdadeiros interessados na mesma, ou seja, os Estados Unidos e a União Soviética que de um só golpe viram assim satisfeita a sua antiga cobiça pela África Portuguesa, aniquilaram Portugal como País relevante no concerto das nações e garantiram décadas de guerra civil devastadora, mas muito lucrativa para os industriais do armamento nas antigas províncias ultramarinas.

Arrasados assim os alicerces económicos da soberania nacional, Portugal tornou-se uma presa fácil dos ditos "mercados" e "agências de rating" que já nos vêm consumindo lentamente desde então. Por outras palavras, o neoliberalismo apátrida está hoje a completar o trabalho que os marxistas portugueses já começaram em 1974, mas sobre estas coisas já não escreve Raquel Varela..
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Notas: 
[1] - YOUTUBE - Quando o Impossível foi Inevitável 2014. 26 de Junho de 2014. Link: http://www.youtube.com/watch?v=SX0PD3WVAlk



Por João José Horta Nobre

Junho de 2014




domingo, 22 de setembro de 2013

Álvaro Cunhal - Traidor e servo da URSS

Com um espectáculo bem montado correm as comemorações sobre o centenário de um cidadão nascido em Portugal, a quem foi dado o nome de baptismo de Álvaro Barreirinhas Cunhal (AC).

O moço cresceu varonil e foi revelando um conjunto de qualidades difíceis de reunir numa mesma pessoa: inteligência, coragem e determinação, invulgares; sensibilidade artística aliada a uma inegável força psíquica interior; rara intuição, cultura e coerência política; frieza de raciocínio e calculismo na organização e planeamento; ascetismo, discrição e exemplo nas atitudes, etc.

Testemunhos dados à estampa levam-nos a pensar, até, que o personagem tinha espírito de humor, gostava de petiscos e era um pai, irmão e companheiro, extremoso.

Este, em traços gerais, o retrato que nos aparece do homem, se bem que ele nos tivesse sempre induzido a pensar que não pertencia ao género humano.

Este homem, porém, cresceu e desenvolveu-se embebedando-se (como diria Pessoa) de leituras e convicções marxistas, fixando-se a sua matriz política final, na mais depurada ortodoxia comunista.

Afirmando-se ateu foi, afinal, um crente. Substituiu, apenas, o dogma católico de sua mãe, pelo dogma do Marxismo-Leninismo. Em vez de Deus serviu o Diabo – na eterna luta entre o Bem e o Mal…

Nele, Álvaro, o ideal comunista – uma doutrina profundamente errada por economicamente incompetente, socialmente redutora, inexequível por anti -natural e de implantação tirânica e sanguinária – plasmou-se como uma verdade absoluta, irredutível, terminal.

Uma ciência infalível, mítica, criadora de um “homem novo”, em que os fins justificavam todos os meios.

Nessa voragem apocalíptica se empenhou até ao fim, sem tergiversar, mesmo depois de Gorbatchev e a queda do muro de Berlim, ter deixado o Comunismo órfão e definitivamente desacreditado. Numa coerência, que muitos sublinham como atributo admirável, esquecendo-se de acrescentar que foi uma coerência no erro!

E uma coerência de Anjo caído, maligna.

Não sendo suficiente ter o erro como objectivo e a perfídia como meio, fazia parte da essência da ideologia torna-la extensiva a todos os povos da terra, assim como o imperialismo napoleónico quis transportar a “luz” da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” – antepassado remoto do novo “sol na terra” – na ponta das baionetas, a fim de libertar os povos dos seus “tiranos”.

Os portugueses sabem bem o que isso foi, pois ficaram com a terra retalhada e cerca de 10% dos seus, trucidados no processo. Alguns descendentes jacobinos ainda hoje lhes tecem loas…

O “quartel – general” das forças “vermelhas” da “foice e martelo, em punho”, que passaram a querer impor o modelo ao planeta, situava-se no centro geopolítico do antigo Ducado da Moscóvia – num antigo edifício conhecido por Kremlin – a quem todas as forças espalhadas pelo mundo passaram a reportar e a obedecer.

O mesmo se passou com o PCP, desde a sua fundação, em 1921, atingindo especial fulgor e empenho, justamente, durante a direcção de AC.

Nisto se consubstanciou a primeira traição do “Comité Central”, à Nação que queriam governar.

Por outras palavras, o PCP nunca se pôde considerar um partido português e serviu sempre de correia de transmissão de uma potência estrangeira, inimiga de Portugal: a URSS.

Não ficou por aqui a traição do PCP – o termo é este, e o crime que configura sempre fez parte (e ainda faz) do Código Penal Português – pois quando os territórios ultramarinos portugueses começaram a ser atacados desde os anos 50 pelo capitalismo apátrida e pelo Comunismo (então ampliado pelo “Terceiro-Mundismo”) o dito Partido, que tem o supremo despautério de se dizer “patriota”, colocou-se ao lado destes últimos e dos movimentos subversivos que nos emboscavam as tropas, promovendo, ainda, a subversão na retaguarda - incluindo a violenta - que era a Metrópole.

E assim se mantiveram até ao golpe de estado de 25/4/1974, quando ajudaram a atirar o poder para a rua; ao abastardamento das FA e à criminosa “Descolonização”, atitude que fez averbar à URSS, a sua maior vitória, no último pico da Guerra – Fria.

Por tudo isto as cerimónias do nascimento de AC deveriam ter lugar em Moscovo - numa praça esconsa por, entretanto, o povo russo se ter livrado dos “slogans” do “comunismo científico”, do “materialismo dialético” e do “internacionalismo proletário”, que custaram à Humanidade centenas de milhões de mortos e sofrimentos inomináveis, apenas comparáveis ao flagelo das hordas de Tamerlão!

Por isso ter cartazes no Liceu Camões, em Lisboa (por ex.), onde se pode ler que AC foi “um grande lutador pela Liberdade, Democracia e Socialismo” é apenas um exemplo despudorado de como “com papas e bolos se enganam os tolos”…

AC era comunista, não socialista; “liberdade” na boca de um comunista é impropério e “democracia” é apenas fachada de uma parede falsa (eles até dizem que é “de vidro”). Pode, até, ser considerado ofensivo para quem milite em semelhante ideologia…

E ver o brilhozinho nos olhos da Judite de Sousa, no programa da TVI, que incensou o personagem é perfeitamente patético e delirante. Deviam enviá-la à Coreia do Norte fazer reportagens, sem se esquecer de levar uns euros - da larga soma com que a ressarciam para fazer destas “reportagens” – a fim de poder distribuir uns óbolos, com que os famintos de lá, pudessem sorver umas malgas de arroz.

Afinal comunismo é isso: distribuir por igual os ganhos obtidos…

Que a maioria da população, com especial destaque para as camadas mais instruídas, forças políticas e órgãos de comunicação social, assistam a tudo isto com uma passividade bovina é que é verdadeiramente preocupante.

Não conseguir reagir às mais grosseiras mentiras – “uma mentira repetida mil vezes, torna-se uma verdade”, é uma das receitas mais afamadas do cardápio leninista – como é o caso da exploração do infeliz incidente com a Catarina Eufémia, em Baleizão, é de uma perigosidade sem limites.

Enfim, qualquer dia ainda lhe fazem uma estátua (ao AC) – paga com os nossos impostos – e transladam os restos mortais de tão prestimoso defensor da classe operária (se bem que os descendentes das vítimas das purgas no interior do Partido, devam ter ideia diferente) para o Panteão Nacional…

Assim se preservam para o futuro as indignidades históricas, as mentiras políticas e as perversões humanas.

Aguardo que as “despesas” sobre este assunto não fiquem apenas por minha conta.

João J. Brandão Ferreira - Oficial Piloto Aviador




Comentário do editor do blogue "Arquivo Reaccionário":

« A memória histórica é muito importante. Sou a favor de uma "Avenida Álvaro Cunhal" em cada cidade portuguesa. Desde que a placa reze assim:

"Avenida Álvaro Cunhal. Traidor da Pátria, Empregado dos Soviéticos, Doente Mental Marxista, Projecto de Ditador Comunista, Autor e promotor moral de Crimes Contra a Humanidade. Inimigo eterno do Povo Português" »





sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sussurros - A Vida Privada na Rússia de Estaline

Vozes recuperadas da tragédia de um povo
Sussurros - A Vida Privada na Rússia de Estaline
Autoria: Orlando Figes
Aletheia

Extraordinário levantamento de casos a partir de testemunhos orais e de diários escondidos durante décadas, a obra de Orlando Figes tem a força e o rigor da História e a intensidade das grandes novelas

Havia mais de 500 apartamentos para altos funcionários do Partido e do Estado na Casa da Beira-Rio, em Moscovo. Por isso rara era a noite, durante o período do Grande Terror, em 1937/38, em que o silêncio não era interrompido pela entrada de rompante de várias viaturas do NKVD, a polícia política de Estaline, no pátio para que dava aquele edifício soturno. Os polícias tratavam de selar as entradas e de procurar, num dos apartamentos, a próxima vítima. Esta, muitas vezes, já os esperava, tinha até uma pequena mala já feita ao lado da cama, sinal de uma incrível incapacidade para tentar escapar.

Estas visitas nocturnas sucediam-se mas ninguém fugia da Casa da Beira-Rio, mostrando uma passividade que Orlando Figes identifica como "um dos aspectos mais impressionantes do Grande Terror". Uma passividade ainda mais impressionante se pensarmos que se inspirava numa crença irracional: a de que se poderia ser sacrificado, mas que isso estava a ser feito em nome do Partido e do ideal comunista.

Osip Piatnitsky era, como escreveu Krupskaia, a viúva de Lenine, em 1932, pelo seu quinquagésimo aniversário, um "típico revolucionário profissional, que se entregou por completo ao Partido, vivendo apenas para os interesses do Partido". Mesmo assim este companheiro de Lenine de origem judaica estaria morto cinco anos depois apesar da sua impressionante folha de serviços, nomeadamente no Comintern, a organização internacional dos partidos comunistas. Foi executado pouco tempo depois de ter entrado em choque com Estaline e de não ter feito nada para salvar a vida apesar de conhecer bem o destino dos opositores.

Mais: poucos dias antes da noite em que o próprio Yezhov, o chefe do NKVD, o foi buscar à Casa da Beira-Rio, confessou a uns amigos que "se for preciso fazer sacrifícios pelo Partido, nesse caso, por muito pesados que eles sejam, fá-los-ei jubilosamente". Como escreveria outra vítima do terror estalinista, o argumentista Velerii Frid, "éramos todos coelhos, que reconhecíamos à jibóia o direito de nos engolir; quem caísse sob o poder do seu olhar dirigia-se calmamente para a boca da jibóia, tomado por um sentimento de fatalidade".

Foi assim que bolcheviques como Piatnitsky admitiram as acusações mirabolantes de que eram alvo apesar de se saberem inocentes: bastou-lhes que o Partido o tivesse exigido. Porquê? Porque, como recorda Orlando Figes, "ditava a moralidade comunista que um bolchevique acusado de crimes contra o Partido tinha de se arrepender, de se ajoelhar diante do Partido e de aceitar o juízo que ele fizesse dele". E, contudo, estes homens não eram inúteis desqualificados, bem pelo contrário, eram a elite do país.

Uma elite que, como os coelhos hipnotizados, aceitou ser dizimada sem resistir: dos 139 membros do Comité Central eleitos no congresso de 1934, nos anos de 1937/38, 102 foram presos e executados e cinco suicidaram-se; no mesmo período foram afastados e mortos dois terços dos membros do alto-comando do Exército Vermelho.

O paroxismo atingido durante o Grande Terror representa contudo apenas o episódio mais extremo das várias décadas de poder soviético que Orlando Figes retrata em "Sussurros" através de relatos da vida comum de pessoas comuns. Fruto de um imenso trabalho de recolha de memórias, cartas pessoais e testemunhos orais, realizado quer pelo historiador britânico, quer pela sua equipa, esta obra é um poderoso fresco, com centenas de personagens e uma grandiosidade que o escritor ucraniano Andrei Kurkov já comparou à do "Arquipélago de Gulag", de Aleksandr Solzhenitsyn.

Há também quem evoque "Guerra e Paz", de Tolstoi, ou "Vida e Destino", de Vasily Grossman, mas "Sussurros" não é uma novela histórica, ou mesmo uma novela sobre um fundo histórico: é um livro onde a história é contada pelos próprios e as suas vidas nos surgem tão verdadeiras como inverosímeis, já que muitas ultrapassam a imaginação do maior dos romancistas. Konstatin Simonov, que chegou a ser o escritor mais popular da União Soviética, funciona como uma espécie de anti-herói cuja vida percorre, a par com muitas outras, os diferentes capítulos deste grosso volume de mais de 700 páginas.

Filho uma princesa russa, cresceu a tentar ocultar as suas origens, fez-se operário antes de se aproximar do jornalismo, viajou pelo Gulag para relatar os seus encantos, acompanhou o Exército Vermelho para cantar a sua heroicidade, ascendeu ao topo da União dos Escritores como favorito de Estaline, casou-se e divorciou-se ao sabor das conveniências e das paixões, protegeu alguns amigos e deixou cair outros, fez-se voz do ditador quando este desencadeou as purgas anti-semitas, assistiu atordoado à leitura por Khrushtchev do seu famoso "relatório secreto" ao XX Congresso, acabando por passar o final da vida corroído pelos remorsos.

Noutro plano bem distinto decorre a vida dos membros da família Golovin, camponeses remediados apanhados no turbilhão da colectivização e acusados de serem kulaks. Na aldeia onde viviam, Obukhovo, eram apenas a família mais importante, bons agricultores que ajudavam os demais até ao dia em que um activista desqualificado do Komsomol (a juventude comunista), que tinha a ambição de presidir à nova herdade colectiva - o kolkhoz -, os denunciou. Seguiram então o destino de centenas de milhar de outros agricultores e foram deportados para os campos que haveriam de tornar possível, à força de trabalho escravo, as grandes obras dos "Planos Quinquenais".

No Inverno seguinte Obukhovo veria morrer metade dos seus cavalos e cada um dos seus camponeses proletarizados receberia apenas 50 gramas de pão por dia. A colectivização forçada do mundo rural russo depressa se revelaria um enorme desastre económico e uma ainda maior tragédia humana. Porém ela marcaria, como lhe chama Orlando Figes, "o corte" entre o mundo antigo e o novo mundo soviético, entre uma Rússia ainda a lamber as feridas da guerra civil que se seguiu à Revolução de 1917 e a Rússia uniformemente submetida a Estaline.

Através das inúmeras histórias comuns de que é feito, "Sussurros" permite-nos sentir de uma forma nova, porventura mais próxima e mais sentida, o que foi o gigantesco exercício de engenharia social levado a cabo no primeiro Estado comunista, permitindo perceber até onde chegou a influência dos poderes públicos e onde esta acabou por não conseguir entrar.

O comunismo é, por definição, um exercício contra os indivíduos em nome do colectivo, pelo que não surpreende que a família tivesse sido "a primeira arena de combate dos bolcheviques", como nota Figes. A "família burguesa" era vista como socialmente prejudicial "por ser conservadora e voltada para dentro", "por ser um baluarte da religião", "por promover o egoísmo e o desejo de coisas materiais".

Por isso, inicialmente, na década de 1920, chegou-se a alimentar na Rússia a esperança de que o Estado se substituísse às famílias, ocupando-se das crianças desde o mais cedo possível. "Pelo facto de amar uma criança, a família transforma-a num ser egoísta, incitando-a a tomar-se como o centro do universo", escreveu Zlata Lilina, uma teórica soviética da educação. E um ABC do Comunismo de 1919 defendia que os pais deviam deixar de utilizar termos como "meu" quando se referiam a um filho.

Para conseguirem os seus objectivos os comunistas não hesitaram em criar apartamentos colectivos onde as famílias eram obrigadas a viver em comunidade, quer por ocupação dos apartamentos maiores, quer pela construção de blocos habitacionais onde tudo seria partilhado, da guarda dos filhos à preparação das refeições, passando pela roupa interior e pelos dormitórios divididos por sexos.

Claro que estas utopias mais radicais duraram pouco tempo, mas a promiscuidade em que as famílias foram obrigadas a viver, partilhando muitos espaços comuns, também contribuía para a dissolução dos espaços de privacidade e para a generalização da percepção de que todos espiavam todos. De resto o nome da obra - "Sussurros" - reflecte a prática desses tempos em que ninguém se atrevia a falar alto com receio das "paredes que tinham ouvidos" - até porque as paredes eram, muitas vezes, apenas um lençol pendurado a dividir o espaço de duas famílias.

Conforme os anos passaram a elite do regime foi reivindicando para ela, e para a sua família, o espaço que antes se pretendera negar a todos, numa prova de que destruir a célula base da sociedade não estava sequer ao alcance de um ditador como Estaline. Mas isso não impediu que outro tipo de intrusos se infiltrasse em muitos núcleos familiares: os próprios filhos.

Por um lado, o regime enquadrava as crianças nos pioneiros - e ai de quem não fosse pioneiro... - e, depois, o Komsomol fornecia a via rápida de ascensão nas estruturas do Partido e do Estado. Por outro lado, o sistema incitava à delação, tendo tornado em heróis nacionais crianças que denunciavam os pais como "inimigos do povo", como kulaks ou como membros das antigas classes dominantes, como sucedeu com Pavlik Morozov, um "herói" de 15 anos celebrado por Máximo Gorky por ter percebido "que um parente de sangue também pode ser um inimigo de espírito".

Por fim, criava todo o tipo de estímulos para que o acto de transformação num "bom comunista" fosse não só honroso como, nos anos mais duros, a única hipótese de sobrevivência. "Muitos filhos de kulaks acabaram por ser fervorosos estalinistas, chegando mesmo a fazer carreira nos órgãos repressivos do Estado", conta Orlando Figes. "Para alguns deles, a transformação foi um longo processo consciente de 'trabalho sobre si próprios', que teve custos psíquicos".

O condicionamento da opinião foi tão forte que entre os degredados do Gulag houve quem chorasse a morte de Estaline, da mesma forma que, mesmo passados anos sobre a sua morte, os que entretanto tinham sido reabilitados continuavam a preferir esconder o seu passado.

Figes conta-nos a história de um casal onde só depois de décadas de vida em comum e quando, já no ocaso da existência, o comunismo já estava a entrar em colapso, ambos revelaram um ao outro que eram filhos dos campos de trabalho, um segredo que cada um deles tinha ciosamente escondido do companheiro.

"Sussurros" tem, por tudo isto, o enorme mérito de fazer falar alto vozes que os anos do Grande Terror, mas não só, submeteram ao "grande silêncio". Ao fazê-lo faz mais do que dar rosto e nome às vítimas, ou mais do que dar ambiente e cor à história da Rússia estalinista: consegue também revelar-nos o tremendo poder de um sistema que, ao associar o medo ao orgulho de ideologia redentora, conseguia não apenas aprisionar os corpos como condicionar as mentes.

Ao investirem tudo no sonho do paraíso na terra e na crença da infalibilidade da doutrina e do partido, milhões de russos caminharam mansamente para o cativeiro e para o martírio e, mesmo quando as portas se abriram, continuaram a não ser homens livres. "Sussurros" é pois também a história da tragédia de um povo, no fundo uma brilhante sequela da primeira e marcante obra de Figes, "A People's Tragedy: The Russian Revolution".
 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"A UE não é tão má como a URSS"

Sim, houve um membro do parlamento europeu que usou esse argumento. Isso é a mesma coisa que dizer "comer uma refeição por dia não é tão mau como comer uma refeição por semana". Talvez, mas ambos os cenários são maus.

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